Ontem, ouvi o Benjamin Netanyahu fazer a evocação do 7 de Outubro, o ataque terrorista do Hamas que matou uma quantidade de judeus e levou à guerra que ainda hoje dura e provocou a destruição completa da Faixa de Gaza, um enclave dentro de Israel em que enclausuraram uns milhões de palestinos para não chatearem o resto do pessoal (entenda-se, judeu). Ele não teve paciência para esperar pelo dia 7 e eu vou fazer como ele, evocar o 7 de Outubro de 1950 que deveria fazer amanhã.
Nos tempos da outra senhora, respeitar a tradição era a palavra de ordem, E a tradição dizia que o Ano Lectivo começava, impreterivelmente, a 7 de Outubro de cada ano. Sempre que esse dia calhasse a um sábado ou domingo, seria a segunda feira o dia de abrir as portas da escola às crianças de cada freguesia. Ontem, como hoje, já o excesso de candidatos punha os professores em alvoroço e a freguesia onde nasci não era excepção.
Tendo nascido no início de Março, eu deveria ter entrado na escola aos seis anos e meio, mas a D. Alexandrina - devia ser Menina, pois ainda era solteira, mas a idade levava toda a gente a tratá-la por Dona - recusou-se a deixar-me entrar com a desculpa que já tinha alunos em (grande) excesso. Talvez até fosse verdade, mas talvez houvesse por lá algum filho de gente importante a furar o esquema e roubar-me o lugar.
A minha mãe, e com razão ficou muito chateada por ver o meu futuro atrasar-se um ano e recorreu às suas influências para me resolver o problema. Na freguesia vizinha havia uma professora com quem se dava bem e me aceitaria como aluno da 1ª Classe na sua escola, Lá combinaram como a coisa se faria e uns dias mais tarde, lá apareci à porta da professora que morava no caminho que eu faria para chegar à escola, e lá seguimos os dois, lado a lado, até onde o resto da criançada esperava que lhe abrissem a porta.
Nesse tempo não havia contínuos nem empregados, como há agora, para ajudar a professora, ele abria e fechava a escola e levava a chave com ele para casa. Chegados lá dentro, colocou-me na primeira carteira da fila da direita, com o Quadro Preto mesmo em frente do meu nariz. A escola era pequenina e tinha quatro filas de carteiras com seis carteiras cada uma. Carteiras de dois lugares, com um tinteiro de porcelana embutido ao meio para serviço dos dois alunos, por conseguinte, capacidade total 48 alunos das quatro classes.
Ao meu lado sentava-se o Licínio, segundo filho de um lavrador que morava paredes meias com a professora. Acredito que a professora tinha uma ligação especial com a família dele e me colocou na carteira dele para evitar algum problema por eu ser um estranho na freguesia. Nem sempre correu bem, mas podia ter sido muito pior. Naquela situação eu poderia ter sido escolhido como bode expiatório (hoje diria vítima de bullying) de todo o tipo de brincadeiras dos colegas, mas assim não aconteceu.
O único problema que me vem à memória foi a nossa desavença por causa do tal tinteiro de porcelana que servia para molharmos a pena e escrever as primeiras letras e números no caderninho de caligrafia, única ferramenta de aprendizagem além da ardósia (lousa) em que desenhávamos as letras, conforme as íamos aprendendo. No primeiro trimestre pouco mais além íamos do que o a,e,i,o,u e os 10 números e a falta de jeito fazia-nos carregar de tal maneira no lápis de pedra que marcávamos a ardósia para todo o sempre.
Mas, voltando ao tinteiro, deveria ser a professora a enchê-lo e não nós, mas dada a confiança com o Licínio ela mandou-o buscar o garrafão da tinta (permanente) e comigo a segurar no tinteiro ele foi enchendo até ... deitar por fora. E depois veio o desaguisado, de quem foi a culpa, não fui eu, foste tu e acabámos à lambada um ao outro com tinta derramada por toda a carteira e um sarilho para a D, Josefina (assim se chamava a senhora, casado e mãe de filhos) que além de limpara a carteira ainda teve que distribuir uma dúzia de bolos para cada um de nós.
O ano de 1950 foi há uma eternidade e parece impossível como tenho estas cenas gravadas na memória, como se tivessem acontecido ontem. Muita gente com quem me cruzo, hoje, física ou virtualmente, ainda não era nascida há 76 anos anos, ou seja, sinto-me já uma "antiguidade clássica". A pior parte de toda esta história foi que, no Outubro seguinte, a D. Alexandrina não aceitou matricular-me na 2ª Classe e tive que perder um ano inteirinho a repetir tudo o que tinha feito no ano anterior. Durante esse ano, eu fui o sabichão da turma, já sabia tudo aquilo que eles batalhavam para aprender!


'O tal enclave dentro de Israel' faz-me lembrar o que se passa hoje em França - deixaram entrar a mesma etnia que terminou com séculos de cristianismo na região. Sem um conhecimento prévio falhamos sempre ao formar a mesma opinião de jornalistas & comentadores do sistema que nos ensaboam diariamente o juízo. Dito isto a minha primeira escola foi na Rua das Damas no Bairro do Castelo. Lembro-me perfeitamente do primeiro dia e de ter tido a mesma sensação quando aos 16 anos fui para os Fuzileiros. Na vedeta de Lisboa para a BN do Alfeite 'um chiko-esperto' de sua graça 'o Trafaria' disse-me em tom de gozo que para ser Fuzileiro era preciso nadar com um sako de cimento às costas (@#$%&). Depois de ter feito uma comissão num Dest. em Angola nunca mais vi o sakana... Mas não ganhei para o susto!
ResponderEliminarEste homem é o máximo!
ResponderEliminarMesmo quando seria previsível perder, ele ganha!
Um abraço.
Gostei do que li. E prestei atenção.
ResponderEliminarCumprimentos, caro Tintinaine.