Vou recuar no tempo até ao dia em que caí na asneira de organizar o convívio anual dos filhos da escola de Março de 62! Os marujos (alunos de Vila Franca) e os fuzos (alunos de Vale de Zebro) nunca se deram bem por razões óbvias. Uns achavam-se herdeiros das tradições do Infante D. Henrique e Vasco da Gama, enquanto que os outros foram chamados à pressa e lançados no mato africano para defender a Pátria ameaçada.
Cada um deles tinha as suas razões e muitas glórias conseguidas no passado, mas em 2013 tudo o que se pretendia era comer um almoço em paz e harmonia organizado, pela primeira vez, por um fuzo, euzinho da Silva, o Tintinaine da Escola de Fuzileiros que falava inglês e, por essa razão e mais nenhuma teve direito a usar essa alcunha até ao dia em que o Criador resolver chamar-me à sua presença para acertarmos as contas. Espero que Ele não seja muito exigente e rigoroso, senão estarei feito ao bife que os pecados são muitos!
Comemos o almoço, mas não fomos capazes de o digerir em paz e acabamos o dia numa guerra pegada jurando para nunca mais repetir uma asneira destas. Dos cerca de 900 filhos da escola desse recrutamento, um terço era fuzo e dois terços marujos. Eles estavam em maioria e, por conseguinte, que organizassem a coisa, no ano a seguir, que comigo não poderiam contar mais. Saiu a fava ao Teixeira, voluntário como eu, o 56 da Escola de Alunos Marinheiros.
Com a tarde a chegar ao fim e os ânimos exaltados decidi partir e ir procurar dormida em Torres Novas que ficava ali mesmo ao lado e serviria de ponto de partida para uma viagem pelo Alentejo que eu pretendia fazer no dia seguinte, o Dia de Portugal. Por acaso, nesse ano de 2013, tinha sido decidido que as comemorações oficiais se desenrolariam em Elvas, junto ao Aqueduto da Amoreira, Ex-Libris dessa cidade alentejana.
Levantei-me cedo, mas a viagem é longa e quando, finalmente, avistei o aqueduto já as tropas desmobilizavam e as autoridades civis e militares tinham partido á procura do Almoço. De Torres Novas a Abrantes, daí até Portalegre para depois acelerar em direcção a Elvas, tive que ouvir das boas da minha acompanhante que não gosta de ver o conta quilómetros ultrapassar os 100 à hora. E depois apanhei muitas placas de 50 pelo caminho, o que quer queiramos ou não nos obriga a refrear os ânimos.
Depois da festa oficial a que presidiu o Cavaco e o respectivo pupilo Passos Coelho, fui à procura de dois filhos da minha escola, oriundos daquela cidade, com quem tinha apalavrado um almoço em conjunto. Mas, antes do almoço, ainda fomos dar uma volta pela cidade, espreitar o Forte de Elvas, onde a PIDE fez sofrer tantos militares "mal comportados", e as Forças Armadas em parada com as suas armas e bagagens a tentar imitar o que se faz em Moscovo ou Pequim.
Desse dois filhos da escola, um já partiu para o Além e o outro, mais novo um bom pedaço, anda, como eu próprio, a amargar uns tratamentos oncológicos que lhe permitam andar por cá mais uns tempos. Passei um bocado da tarde com ele, em casa do seu pai, o velho Santana, de quem tomava conta, mês sim mês não, alternando com outro irmão que o ajudava nessa missão. Depois disso, rumei a norte, fui às cerejas ao Fundão e pernoitei na Covilhã, relembrando andanças antigas, para no dia seguinte subir a Serra da Estrela e ver se encontrava um restaurante que servisse um cabritinho para o almoço.
E pouco mais tenho a contar. O caminho de regresso é sempre um pouco mais triste que o de ida, pois nos lembra que a festa acabou e a vida real volta com todo o seu peso. Vou deixar-vos aqui um par de fotos - se forem mais que duas não me castiguem pelo erro das palavras - para recordar outros feitos e outras eras que foram importantes na nossa História.






