Hoje, logo que entrei no Facebook, vi uma publicação de algum ex-combatente da Guerra Colonial, com um miúdo negro ao colo, afirmando que tinha sido apanhado no mato, em Angola, enquanto ali prestava serviço.
Logo surgiram montes de comentários, uns mais parvos que outros, a respeito da criança, quem era, de onde viera quem a levara para onde. E, como eu já desconfiava, logo surgiram os comentários de quem, como eu, esteve em Moçambique e conhece a história de dois miúdos negros que os fuzileiros recolheram do mato, entre outros homens e mulheres por serem cativos ou ajudarem os guerrilheiros da Frelimo.
O primeiro desses miúdos era de Cabo Delgado e foi levado para a Base Naval de Porto Amélia, onde estavam aquartelados os fuzileiros. Tanto quanto li, nas redes sociais, esse miúdo foi trazido para Portugal (metropolitano) pelo comandante d DFE (se bem recordo o DFE6) que o trouxe do mato e não o quis deixar abandonado na cidade grande sem qualquer família. Até certo ponto, considerava-se responsável por ter sido ele a capturá-lo e trazê-lo para a cidade. Foi matriculado na 1ª Classe e fez toda a Instrução Primária obrigatória. Teve uma vida normal e, tanto quanto recordo dessa história, já faleceu, há bastantes anos.
O segundo miúdo é esse que podem ver na foto acima e com quem convivi, durante cerca de 15 meses. Como os fuzileiros especiais andavam sempre no mato e não tinham condições para cuidar dele, ele encostou-se ao pessoal da minha Companhia e vivia ao mesmo ritmo que nós. Arranjaram-lhe uma farda, apresentava-se na formatura e acompanhava sempre algum dos meus camaradas, tanto nos serviços como nas refeições. Os mais habituais, com quem ele se sentia melhor, eram o Américo e o Ângelo (com ele na foto) que aparecem em várias fotos que constam dos meus álbuns de recordações.
No Facebook, criei um grupo a que dei o nome de «Amigos de Metangula», onde a certa altura apareceu uma fotografia do José. Logo começaram os comentários de quem não conhece a história, mas não consegue ficar calado e, como seria de esperar, começa o chorrilho de asneiras do costume. Como estou em ligação com muita gente de Metangula, uns muito jovens que não têm memória destas coisas e outros mais velhos que já têm recordações da época pós-independência, resolvi investigar e tentar descobrir que destino teria levado o puto da Frelimo.
Comecei por ter notícias da vida dele, em Metangula, na época pós independência que me levaram a perceber que ele era tomado como homosexual ou um pouco tresloucado. Depois descobri que ele vivia (e ainda vive) na capital do distrito sob a protecção de uma familiar que o ajuda na sua relativa miséria. Foi ela que me contou aquilo que sei da história que, sem ter quem a confirme como verdadeira, aceito como tal.
Depois de ter vivido a sua juventude, em Metangula, durante os conturbados tempos da Guerra Civil que opôs a Frelimo à Renamo, o José partiu para Meleluca - povoação localizada a meio caminho entre Metangula e Meponda - na tentativa de encontrar a sua mãe ou alguém da família a quem se encostar. Não encontrando ninguém, ele rumou a Lichinga (actual nome da nossa velha Vila Cabral) e tendo vivido muito tempo com a tropa portuguesa foi aceite (quase) como se de um funcionário público se tratasse.
Não sei se pago ou, simplesmente, protegido pelas entidades públicas, ele viveu assim até à reforma e acabou a viver em casa de uma senhora que é funcionária pública e sobrinha da desaparecida, durante a guerra, mãe do José. Se, em 1967, ele tinha 7 anos, terá nascido em 1960 e tem, actualmente, 66 anos. Segundo a sua prima (Rosa de seu nome e também ela um pouco vítima da Guerra Colonial, pois é filha de um soldado português que por lá andou a combater a Frelimo) ele que já tinha sido dado como meio louco, quando jovem, agora não diz coisa com coisa nem fala com ninguém
A Rosa deu-se ao trabalho de lhe vestir um fato (velho e desbotado) para lhe tirar uma foto que me enviou para eu ilustrar a sua história que já publiquei no meu antigo blog, ou no Facebook, já não recordo bem. Tal como agora, fui motivado pelas publicações que vieram afirmar coisas que sei não serem verdadeiras e soltaram a minha verve!
