Venda - que nome bem escolhido - era o lugar onde se vendia tudo aquilo que a gente precisava e não conseguia tirar da terra ou das mãos dos artesãos. Desde a mercearia aos combustíveis, ou dos fertilizantes até aos utensílios usados para todos os fins, tudo podia ser trocado na venda por algumas moedas ou notas que o aldeão levasse no bolso. Essa que vêem na imagem acima era a Venda da minha aldeia, quando ali nasci, ainda no tempo da II Grande Guerra.
Estrategicamente, situada à margem da estrada que liga Balazar, freguesia já pertencente ao concelho da Póvoa de Varzim, à cidade de Barcelos e ao lado da igreja paroquial, a venda era local de reunião obrigatória para muita gente. As mulheres procuravam ali o que meter na panela para cozinhar o almoço ou jantar e também o azeite e o petróleo sem os quais as coisas não funcionavam. O azeite para amaciar a comida e ajudá-la a deslizar pela goela abaixo e o petróleo (de iluminação) para encher candieiros e candeias, pois electricidade ainda ali não tinha chegado.
Os homens procuravam outras coisas, tais como adubos para os seus campos ou pequenas alfaias agrícolas, além de aproveitarem para molhar o bico, cada vez que lá iam. Logo de manhã cedo, emborcavam um bagacinho para matar o bicho ou espantar o frio do inverno. Havia quem garantisse que era como uma vacina para a gripe, quem tinha esse costume passava todo o inverno sem engripar.
Além do mais, o dono da venda era também o alveitar mais conhecido da região (indivíduo que, sem ter um diploma ou formação académica formal em medicina veterinária, trata de animais doentes ou atua como ferrador) e atendia qualquer pessoa que requisitasse os seus serviços a qualquer hora do dia. O eido, atrás da venda, servia esse propósito às mil maravilhas. Ali assisti a algumas consultas dadas pelo Sr. José Silva (nome do vendeiro).
Era local que eu odiava. Os homens mais velhos que ali iam matar o bicho, umas vezes encostados ao balcão, outras vezes às ombreiras da porta de entrada, tinham sempre algum aparte a dizer sobre cada pessoa que lhe passava ao alcance dos olhos. Eram os bisbilhoteiros da aldeia e tinham o mau hábito que propalar qualquer notícia que fosse pouco abonatória para quem morava na aldeia. Ele era um bêbado, ela uma desavergonhada, o rapaz um atrevido e a rapariga era o diabo que desencaminhava os homens.
Aos domingos o problema aumentava, pois aos matabicheiros do costume juntavam-se os rapazolas, já em idade de ir para a tropa e que tinham pressa de ser (considerados) homens como aqueles a quem se juntavam nessas horas. E se tocava a dizer mal de alguma rapariga eles eram os primeirinhos a abrir a boca, na maioria das vezes por despeito, por terem tentado aproximar-se sem sucesso.
Eu, adivinhando a situação, preferia mudar de caminho para ali não passar. Nunca ouvi, mas imaginava que diziam mal da minha mãe por ter casado com um homem de fora e por já ter 5 filhos ao fim de 10 anos de casamento. Além de trazer os filhos todos descalços, pois o dinheiro que o homem ganhava mal dava para comer. E se não fosse ela a trabalhar na costura, bem podia acontecer que morressem de fome.
No fim da missa de domingo, as mulheres da aldeia faziam bicha para levar o quilo de arroz destinado ao almoço melhorado para desenfastiar das batatas com hortaliça (e um bocadinho de toucinho) que serviam ao homem e aos filhos nos outros dias da semana. Os homens juntavam-se, aos grupinhos, pelas esquinas, à volta da venda ou da igreja, para comentarem as notícias ou trocarem impressões sobre as suas sementeiras, colheitas ou rebanhos de gado.
Ao meio dia despejavam-se de gente a venda e a igreja e todos rumavam a casa para reconfortar os estômagos que já roncavam ao fim de tantas horas sem nada lá dentro para digerir. Com as pipas do vinho ali ao lado, não havia refeição de domingo que não fosse bem regada, sabendo que no fim haveria lugar a uma merecida sesta, luxo que só aos domingos lhes era permitida!