Eu só tinha 18 anos!
Quando munido de uma G3 cheguei a Moçambique para defender aquela "província ultramarina" (havíamos sido proibidos de lhe chamar colónia) por ordem de Sua Ex.cia o Prof. Dr. António de Oliveira Salazar que eu conhecia bem da minha Escola Primária, onde havia uma grande fotografia dele pendurada por cima do quadro preto.
Ficamos alojados num quartel novo (semi-acabado) no lugar do Infulene que já pertence à Vila da Machava. A distância até ao centro da capital era de meia dúzia de quilómetros e tínhamos ao nosso serviço um belo autocarro azul marinho, cor oficial da Marinha de Guerra, de marca Scania Vabis que nos levava e trazia da cidade sempre que não estivéssemos de serviço ou de castigo. Nunca poderia esquecer o castigo, pois era a ocorrência mais registada no «LIVRO» com que éramos ameaçados a toda a hora.
Olha que vais para o Livro, dizia o sargento sempre que tinha acordado para o lado errado! Um passo em falso, uma barba mal feita ou um cabelo a ultrapassar os 4 cms de comprimento, uma palavra, uma risada, um olhar de través na formatura e já estavas no livro e com as licenças cortadas. Mas. esquecendo isso, era uma alegria entrar no Scania e rumar à cidade para ver outras caras (e corpos) que não os do dia a dia e sempre de farda vestida.
Quando havia umas coroas livres era obrigatória uma paragem na Quinta do Paraíso, junto ao Jardim Zoológico, onde se bebiam fresquinhas Laurentinas e se comiam bem picantes galinhas à cafreal. Mais tarde, na minha segunda comissão de serviço, já tinha construída a fábrica de cerveja 2M, a meio caminho entre o Quartel e a Quinta do Paraíso e a cerveja passou a ser a 2M, em forma de bazuca, que servia para refrescar a goela esquentada pelo piri-piri.
O gerente do negócio era um filho da minha terra e de parentesco afastado e por isso contava com ele como amigo. O seu restaurante servia de pensão e asilo a muito fuzileiro que passava à porta da "Quinta" várias vezes ao dia e se sentia tentado a entrar. O Sr. Araújo (ou Alves, apelido do seu pai, como também era conhecido) regressou a Portugal, depois da independência da colónia, e ficou a residir aqui na Póvoa. Já éramos amigos, continuamos a ser e vemo-nos, de vez em quando.
Por coincidência, no meu primeiro emprego, depois de sair da Marinha, tinha por colega um irmão desse Sr. Araújo que morava na aldeia onde ambos nascemos e faleceu anteontem. Toda esta viagem pelo passado serviu apenas para vos informar que daqui a umas horitas o vou acompanhar atè à sua última morada e espero lá encontrar o velho Araújo da Quinta do Paraíso para matar saudades. E digo velho, porque ele era uns bons dez anos mais velho que eu e, se não morreu entretanto, vai entre os 90 e os 100. Para além de que a alcunha da família da sua mãe que era "do Velho", família de muitos irmãos, cunhados, filhos e sobrinhos que conheci bem e com quem convivi, durante os primeiros anos da minha juventude!
