A NRP Pêro Escobar (F335) foi uma célebre fragata da Marinha Portuguesa que permaneceu em serviço entre 1957 e 1975. Desenhada com base em projetos norte-americanos de destroyer escorts (escoltas contratorpedeiros), foi construída em Itália nos estaleiros de Castellammare di Stabia e cedida a Portugal no âmbito da NATO.
Quando desembarquei, pela primeira vez, ela não estava lá, andava a navegar em serviço de rotina, talvez a caminho, ou de regresso, de Angola que estava na ordem do dia, por causa da guerra colonial que lá rebentara, há cerca de um ano. Não estava na Base Naval do Alfeite, mas toda a gente falava nela, por ser a nova coqueluche da Marinha de Guerra Portuguesa.
Encostados ao cais viam-se alguns navios, velhos draga-minas e os contra-torpedeiros Douro e Dão a aguardar desmantelamento. Lá estava também a velha Sagres, verdadeiro ninho de ratos, onde passei 15 dias da minha vida para algumas aulas de Marinharia (a arte de ser marinheiro) e aprender a interpretar as ordens do contramestre transmitidas pelo seu apito metálico. Da Gina nem rastos, mas era dela que toda a marujada falava. Cada vez que pisávamos o cais da Base, o assunto era os navios que tínhamos e em que talvez viéssemos a embarcar, num futuro não muito distante.

Devia ter começado por dizer que a fragata Pero Escobar, ao entrar ao serviço da nossa Marinha, escolheu para sua madrinha a actriz italiana Gina Lollobrígida que assim ficou conhecida por «GINA» relegando o nome Pero Escobar para os documentos oficiais apenas. Muitos marujos da sua tripulação tinham um poster dessa actriz colado na parte interior da porta do seu cacifo. De tal modo que depois de acordar e antes de ir dormir lhe pudessem deitar um olhar apaixonado e sonhar belos sonhos.
A par da Sofia Loren ela era do melhor que o cinema italiano já teve. Pão amor e fantasia foi o primeiro filme que a projectou para o estrelato. Ela era um portento de mulher, quando eu ainda mal tinha abandonado as fraldas e uma quarentona de se lhe tirar o chapéu, quando eu atingi a maioridade. No tempo em que frequentava os cinemas, quase diariamente, vi todos os filmes dela que apareceram em cartaz, mas, sinceramente, não me lembro do nome de nenhum deles.
Não sei se os meus seguidores estarão mais interessados na Gina navio, ou na Gina mulher, mas podem tirar o cavalinho da chuva que a conversa, por hoje, terminou. Foi uma curta viagem ao meu passado e ao dia 8 de Março de 1962, dia em que entrei na Doca da Marinha, pela primeira vez, para apanhar a vedeta para o Alfeite, onde me fui apresentar para a inspecção, física e de habilitações literárias (pomposo nome) que, a correr bem, me abriria as portas da Briosa!
PS - A Gina era o navio mais rápido da nossa marinha, uns famosos 25 nós, quando o máximo conseguido por qualquer outro se ficava pelos 20, ou mesmo 18, como média. Dizia-se que tinha rebentado a máquina de tanto "acelerar" atrás do Santa Maria, quando o Galvão o levou para o Brasil, mas acho que isso era apenas conversa de quem não sabia mais do que falar!