terça-feira, 3 de novembro de 2026

A Poesia!

 Não se escreve, sente-se!

E eu não sinto nada, por isso não sou, nunca poderia ser, poeta!

Tenho notado que a maioria dos meus amigos da Blogosfera gosta de Poesia. Alguns escrevem mesmo poemas que submetem à apreciação dos seus seguidores/leitores. Eu não me atrevo a fazer qualquer crítica, pois não me sinto nada preparado para isso.

Os poetas que conheço foram-me impostos, empurrados, pelos meus professores de Português que eram pagos para isso, com muita ou pouca vontade, com alguma ou quase nenhuma veia poética dentro deles próprios. O último deles, por acaso também escritor de terceira categoria (não revelo o seu nome por razões óbvias), era um bonacheirão que pesava mais de 12o Kilos e por isso recebeu a alcunha de «Chico Pipa»!

Além do Camões (que acabou por sair-me na rifa no exame do 5º Ano), o Chico Pipa insistia em autores como Júlio Dinis, Eça de Queirós ou Almeida Garrett e quando o assunto mudava da Prosa para a Poesia os eleitos eram Cesário Verde ou Florbela Espanca, Do Bocage, Torga ou António Aleixo nunca o ouvi falar. Imagino que fosse por razões políticas, pois a "Censura" andava de olho nessa gente.

Na minha juventude também eu escrevi muitos versos, mas era um exercício simples de respeitar a métrica e rima nos versos que fazia, ou seja, um exercício mecânico sem o mínimo valor poético. Na minha recruta, na Marinha de Guerra, fiquei conhecido por ter um livrinho de quadras que todos os camaradas já tinham lido e delas diziam maravilhas. Isso motivava-me a ir acrescentando sempre mais uma e o livrinho foi crescendo sempre. Um dia alguém o levou e nunca mais devolveu e assim acabou a minha vida de poeta,

Como disse, no princípio deste texto, a poesia é algo que tem que sair cá de dentro, é preciso sentir intensamente aquilo que se quer transmitir a quem vai ler o que escrevemos. E a rima pode ser branca que isso não tira valor ao poema. Também o estilo de escrita pode ser qualquer um, o Camões preferiu estrofes, a Florbela sonetos, o Aleixo quadras e há outros mais perfeccionistas que poéticos que optam por quintilhas, sextilhas ou décimas. Eles lá sabem porquê!


"Nós temos uma quinta. Há nela um bocado,
Um bocado de terra cultivado,
E um pinhal de mansos, alto e carregado,
Onde o vento passa com um som de mar."

"Que fartura de água! Corre em fios de ouro
Por entre as verduras; e o gado touro
Anda na lezíria, gordo, no namoro,
Com o sol na pele, sem se fatigar."


Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além-Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim e
Dizer-te isto a cantar-te toda a gente!

3 comentários:

  1. Se a Bic existisse / No tempo do Camões / Seria uma chatice / Com poesia aos montões.

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  2. Está tudo dito, caro Tintinaine: "a poesia não se escreve, sente-se".

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  3. A alma portuguesa é verdadeira POESIA.
    Essa ligação umbilical à poesia — à palavra cantada, ao fado, à oralidade — mostra que a literatura, em Portugal, nunca foi um exclusivo de quem sabe ler ou escrever; é um estado de espírito.
    Luís Vaz de Camões moldou a nossa identidade, transformando a nossa língua numa pátria. Esse "gene" manifesta-se na capacidade que o povo português tem de sentir o mundo de forma poética, muitas vezes através da melancolia, da saudade e de uma sensibilidade única que ultrapassa qualquer barreira de literária. A poesia, em Portugal, nasce da própria terra e da vivência das pessoas.
    Se pensarmos bem, até a nossa história e a nossa geografia — virados para o mar, na ponta da Europa — convidam à contemplação e ao lirismo.

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