Hoje, decidi abrir o livro do meu descontentamento para vos dizer que, há 20 anos atrás (dizem os linguistas que este "atrás" não deve ser usado, pois é uma redundância, mas eu preciso da redundância para enfatizar aquilo que digo), eu não sonhava ter que começar a contar os tostões de modo a garantir que o dinheiro chega para pagar todas as minhas obrigações.
Em vista da falência mais que garantida que a empresa que me empregava enfrentava, eu decidi pedir a reforma antecipada e aí sofri logo um corte de quase 40% no cálculo da reforma, em relação ao último salário que tinha à altura. Depois, a partir de Setembro de 2002, começou a verdadeira carnificina advinda da inflação. As leis socialistas fizeram com que o valor da reforma nunca fosse actualizado até à chegada da Troika. A troika e o Sr, Passos Coelho levaram-me muitos euros, mas perdoo-lhes, pois alguém teria que pagar a crise e eu estava em melhor situação para o fazer que 80% dos restantes portugueses.
Só no ano de 2023 (salvo erro) voltei a receber o valor que me tinha sido atribuido em 2002 e daí para cá tenho sido aumentado ao nível da inflação. Em termos reais eu deveria estar a receber quase o dobro para ter um poder de compra igual ao que tinha, no último trimestre de 2002. Mas não estou nem vejo maneira de isso se vir a alterar até ao dia em que saia de casa com os pés para a frente e carregado por terceiros!
E agora, vou dar-vos um outro exemplo para perceberem como a vida é madrasta e ninguém pode "dizer que está bem com a vida que tem"! No meu último ano de colégio (já como aluno externo) eu tinha dois colegas que foram os meus dois únicos amigos dessa época em que vivi como se fosse filho de pai rico, o Abílio e o António.
O Abílio era filho de um militar de alta patente. Tinha um irmão, o mais novinho de todos, e três irmãs que eram umas brasas. Ainda me questionei se um dia me poderia candidatar a namorado da mais nova, a qual deveria ser, ligeiramente, mais nova que eu, mas disse a mim mesmo que era melhor ter juízo na moleirinha e pensar noutra coisa.
Já o António tinha sido aluno dos Jesuítas, como eu, nos primeiros quatro anos de estudo e era filho de um veterinário muito bem sucedido e tinha uma carrada de irmãos (e irmãs). Na casa dele, como na do Abílio, não faltava nada, podia dizer-se que faziam vida de ricos. As férias eram passadas nas Termas para pôr o físico em ordem e garantir uma vida saudável para os 11 meses seguintes. Desintoxicar o fígado das gorduras ingeridas em excesso e dos conhaques que acompanhavam o cafezinho, depois das refeições.
As mães destes meus dois amigos acabaram as suas vidas com algumas dificuldades e, em parte na dependência dos seus filhos. Os maridos morreram cedo e as reformas foram encolhendo com o tempo, como está a acontecer com a minha, e como se fosse uma vingança do destino viveram muitos anos, O pai do António ganhou muito dinheiro, enquanto exerceu a sua profissão, mas nunca fez grandes descontos para a Previdência nem cuidou de criar um qualquer sistema, público ou privado, que protegesse a sua esposa, quando ele lhe faltasse. Sorte a dela ter muitos filhos e todos com boa formação e emprego para lhe poderem valer.
A mãe do Abílio não teve tanta sorte, O Abílio fez o Curso Geral dos Liceus e não teve pedalada para ir mais além. O pai queria-o no Exército para a vida, mas ele não alinhou nisso. Arranjou um emprego, no negócio dos petróleos, e por ali se ficou até ao fim da carreira. O filho mais novo conseguiu formar-se em Medicina, mas aos 50 anos era um alcoólico inveterado. As filhas foram casando e desaparecendo, cada uma para seu lado e a viver em função dos seus maridos. A velhota acabou a viver sozinha e a contar os tostões. Por sorte tinha uma boa casa e nunca teve que pagar renda ou fazer obras que não tinha posses para pagar.
A pensão de sobrevivência, não havendo outros rendimentos, como era o caso das duas senhoras, não é grande coisa para quem está habituado a uma vida de larguezas. Acredito que ambas deveriam ter uns bons contos de reis no Banco, quando ficaram sem marido, mas o monte donde se tira e nunca se põe, começa a diminuir, rapidamente. E foi assim que elas chegaram ao fim das suas vidas "quase" a pedir esmola!
Eu fiz um "fundo de sobrevivência" para a minha mulher e espero que ela consiga viver com algum conforto, depois de eu bater as botas. A reforma dela é miniatural, pois só trabalhou meia dúzia de anos em toda a vida. Eu obriguei-a a ficar em casa para me criar os filhos e, por vezes, ela atira-me isso à cara, dizendo que lhe estraguei a vida. Eu tenho outra opinião, acho que ela criou os seus filhos (que também são os meus) com o maior conforto e sem passar pelos problemas que todas as mulheres da sua geração passaram. E com os 3 pilares de apoio que terá à sua disposição, reforma, pensão de sobrevivência e o tal fundo que eu lhe criei, acho que nunca terá dificuldades de maior.
Por vezes, fala-me na hipótese de ter que se recolher num Lar de Idosos, pois os filhos e netos têm a sua vida e não quer ser ela a complicar-lha. Ainda tens a casa, digo-lhe eu, podes vendê-la, acertar as contas com o Lar e ainda te sobrará dinheiro! Às tantas ainda morro eu primeiro, queixa-se ela! Não te preocupes com isso, pois se isso acontecer está tudo resolvido!
N.B. - Como hoje é o dia dos Fiéis Defuntos, o último período do texto ficou a matar!!!

O texto está muito bem escrito.
ResponderEliminarPermita-me que diga que o problema da Troika não foi arrastado pelo PS. Antes disso, já as finanças tuga estavam mal, muito mal.
Passos Coelho piorou a situação, com decisões inadmissíveis que deixaram a maioria ainda pior.
E não digo mais nada, não apareça por aí o cidadão papa óstias disfarçado de bruxa má.
Cumprimentos, caro Tintinaine.
A cidadã papa óstias disfarçada de bruxa má elogia o excelente trocadilho "Ficou a matar" é a expressão perfeita para o Dia dos Fiéis Defuntos, unindo o humor negro à precisão cronológica da data.
ResponderEliminar