Dava jeito ser amigo do Valter!
Ele andava sempre como um falcão à procura de presas em que pudesse ferrar o dente. Na maioria das vezes não passava do primeiro contacto e adeus que se faz tarde! Mas de facto vivia rodeado de mulheres e, algumas vezes, isso aproveitava aos amigos que o rodeavam.
Foi o meu caso, nos idos de 1965, quando embarcámos no Infante D. Henrique para regressar à Metrópole, depois de uma comissão de 30 meses, em Moçambique. Logo nos primeiros dias ele deitou os olhos a uma miúda magricela, de cabelos loiros e um dente, ligeiramente, desalinhado dos outros. Chamava-se Manuela (para mim Nelita), ainda não tinha feito 17 anos, vinha para a Metrópole continuar os estudos no liceu e candidatar-se à Universidade.
Ao fim de duas ou três investidas sem sucesso, o Valter veio ter comigo e disse-me que achava melhor eu aproximar-me da miúda, pois ela dera-lhe a entender que gostava era de mim. Imagino que ao Valter lhe deve ter custado bastante dizer aquilo, mas como acabara de levar um fora, apenas mais um na sua já longa lista, pouco lhe importaria o que se viesse a passar a seguir.
A Manuela viajava com a irmã de 11 anos e a mãe divorciada na companhia de uma senhora já velhota que era conterrânea do Valter e que eu também conhecia por ser avó de uma outra miúda por quem me interessara e, por essa razão, passei a ser visita lá de casa. Um chá com biscoitos nas tardes de domingo e coisas desse género. Ambos, eu e o Valter, a tratávamos por avó e, vá lá saber-se porquê, também a Manuela lhe dispensava esse tratamento, sabendo eu que não tinham qualquer laço de família.
Até passarmos a cidade do Cabo nada de especial aconteceu, mas depois, no longo percurso até Luanda, comecei a namoriscar com ela e assim continuámos até desembarcar, em Lisboa. Ela já me tinha confidenciado que ia morar para uma freguesia de Aveiro, e ficaria hospedada em casa de uma senhora amiga da sua família. Ninguém me disse, mas assumi que seriam relações do seu pai, pois a mãe era moçambica com raízes indianas e, tanto quanto me foi dado saber nunca tina vindo a Portugal. Na despedida prometemos escrever-nos e manter contacto, dentro dos possíveis, daí em diante.
Eu tinha que entrar num curso de aperfeiçoamento, daí a pouco tempo, mas o Comandante da Escola de Fuzileiros decidiu dar-nos uma semana de férias, antes de nos dedicarmos a isso. E eu aproveitei para ir a correr a Aveiro ver como estava a Manuela, a sua irmã e a mãe instaladas e onde. A velhota, em casa de quem ficaram hospedadas, era vizinha e amiga de uma família que morava na casa ao lado, Família que constava de pai, mãe e 3 filhas, entre os 12 e os 18 anos de idade e, nem preciso de referir isso, passaram a funcionar como uma verdadeira família para a Manuela e a sua irmã de 11 anos. Os jovens atraem-se uns aos outros e mantêm uma maior distância no que respeita às pessoas mais velhas, como era o caso da hospedeira desta família vinda de Lourenço Marques.
Namoro à distância não tem grande futuro e eu vi a Manuela apenas mais uma vez, antes de regressar a Moçambique. Mantivemos a nossa correspondência, enquanto estive cá, em Portugal, mas depois de regressar a Moçambique achei que era uma perda de tempo e a nossa história conjunta tinha muito poucas hipóteses de ter sucesso. Além do mais, eu sabia que a Manuela punha todas as suas energias no curso que queria frequentar na universidade, tudo o mais era supérfluo. Assim fechei aquele capítulo da minha história e segui viagem.
Mas houve algo que ficou daquela minha curta relação com a Manuela. A filha mais velha daquela família de quem se tornaram amigos tinha 18 anos e tinha um complexo, de inferioridade, suponho eu, que a fazia desejar os namoradas das suas amigas e fazia todos os possíveis por lhos roubar. Ao regressar de Moçambique, três anos depois, por mera cortesia fui visitar aquela gente toda, a velhota e as duas famílias que tão bem me tinham recebido, quando as visitei, no ano de 1965. Esqueci-me de mencionar que fiquei lá em casa de um dia para o outro e tudo fizeram para eu me sentir em casa.
A primeira coisa que fiz, ao chegar de Moçambique, foi comprar uma mota, uma velha BSA de 250 CM3 que fazia mais barulho do que andava. E foi nela que apareci em Aveiro para impressionar a mulherada. A Manuela já não estava lá, tinha preferido inscrever-se na faculdade, em Lisboa e foi a Gina, assim se chamava a "matulona" que tinha por vício roubar os namorados das amigas, que me fez companhia o tempo todo.
Ela era tão sem vergonha que despachou o namorado que estava com ela, quando lá cheguei, para irmos os dois dar um grande passeio de mota. Eu não conhecia nada por aqueles lados, mas ela guiou-me por entre os canais e canaviais do delta do rio Vouga que percorremos em velocidade louca fazendo-lhe esvoaçar os cabelos ao vento. Imaginem ela agarrada a mim com todas as forças, com medo de ficar pelo caminho, e os nossos corações a ribombar dentro do peito, cada um de nós perdido nos seus pensamentos e, sabe Deus com que desejos.
Regressei a casa, nesse dia, sem que nada de especial se tenha passado. Soube que ela tinha por hábito ler todas as cartas que eu escrevia à Manuela, contou-me ela, e morria de inveja por não lhe serem dirigidas aquelas palavras que eu escrevinhava nas folhas de papel e lhe remetia pelo correio. Cerca de um ano mais tarde, já eu estava casado e tinha uma filha de poucos meses de idade, apareceu-me aqui em casa, abraçou-me. efusivamente, e pegando na minha filha ao colo, disse:
- Minha bebé linda, podias ser minha filha!!!
Nos anos seguintes, aconteceram mais uns episódios que levaram a minha mulher aos arames, mas essa parte, manda o decoro e a boa educação, guardo-a só para mim!