terça-feira, 27 de outubro de 2026

O ouro dos romanos!

 Nós, portugueses, devemos muito aos romanos!

Refiro-me, claro está, aos romanos do tempo de César, aqueles que saíram de Roma, protegidos pelas suas legiões, à procura daquilo que lhes fazia falta na sua cidade, Metais de qualquer tipo, de preferência preciosos, vinho e azeite. Andaram por toda a Europa, deram e levaram porrada de toda a gente, e um dia guinaram à esquerda e entraram pela Península Ibérica adentro.

Chegaram à Lusitânia (?) ainda Jesus Cristo não tinha vindo ao mundo e andaram por cá uma boa meia dúzia de séculos. Durante todo esse tempo, além de lutar contra os ímpetos dos locais que não gostavam de ser mandados por ninguém (ainda hoje continuam assim), trataram de implementar as suas leis e costumes. Começaram por impor e ensinar a sua Língua, o Latim antigo, de modo que todo o mundo se conseguisse entender.

Do ponto de vista material eles começaram por organizar as "cidades", rasgaram estradas e construíram pontes que duram até aos dias de hoje. A seguir às estradas e pontes vieram as muralhas para protecção dos cidadãos e depois as minas para extrair os minerais que lhe faziam falta, os preciosos e os outros, pois além de cunhar moeda também tinham que pensar nas armas e utensílios que estavam na primeira linha do interesse público.

E seguindo esse caminho vieram parar ao «Castro de Terroso», cujas ruínas são ainda visíveis nessa freguesia do concelho da Póvoa de Varzim. E pelos arredores dessa povoação começaram a procurar indícios da existência de metais preciosos, ouro e prata, que os especialistas na matéria acreditavam existir. Em breve foi localizado um filão que deu origem a uma mina que foi explorada, enquanto por cá permaneceram e abandonada, quando apertaram as grevas e marcharam a caminho de Roma.

Um pequeno ribeiro que corria nos arredores da mina e, quase de certeza, serviu para lavar as areias auríferas, separando o ouro valioso da terra sem valor, num ano em que o inverno foi mais austero, invadiu a mina abandonada e alagou-a por completo, situação que se mantém ainda na actualidade.

E assim, seguindo a pista dos romanos, cheguei ao local onde a minha avó Maria nasceu, no ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, de mil oitocentos e noventa. Fruto de um casamento tardio da sua mãe com um viúvo de 63 anos de idade, ela nunca teve razões para ter uma vida feliz. O seu pai, tendo ficado viúvo aos 63 anos, precisava de uma mulher em casa que o ajudasse na sua pequena lavoura de onde tirava o suficiente, mas sempre pouco e muito suado, para o seu sustento. E foi nessa condição que a minha avozinha também nasceu, ajudanta para todo o serviço, mal ganhou forças nas pernas para correr atrás do pai e da mãe, lavradores por necessidade.

Quis o destino (a sorte, o azar, ou coisa que o valha) que nunca tivesse casado e a filha que nasceu de um namorico com o meu avô (incógnito) António, além da mãe, depois de ficar viúva, tivessem sido a sua única família, durante muitos anos, Já a II Grande Guerra tinha começado, quando a sua filha arranjou marido e formaram uma família de um homem e três mulheres, uma novidade para elas que não viam um homem em casa, desde o fim do século anterior.

E, como o tempo não para, a mais velhota da família, nascida a meio do século XIX, entregou a alma ao criador e deixou a sua filha e neta sozinhas, à espera de verem a família aumentar. Durante o período da guerra, sempre com receio de vir a ser mobilizado para combater os alemães, o meu pai foi fazendo aquilo que era mais natural, naquele tempo em que não havia camisinhas nem pílulas contraceptivas, filhos. Antes de a guerra terminar, em 1945, já tinham nascido três e o quarto estava encomendado e viria a nascer no princípio de Janeiro do ano seguinte.

Dessa fornada eu sou o número 3, nascido em 1944, e esta história que começou com os romanos e era, principalmente, para falar da minha avó Maria, acabou por ter pouco a ver com ela. Acabou com a minha vinda ao mundo e acaba por estar tudo certo, uma vez que isto não é mais que um capítulo das meinhas memórias que nunca escreverei e muito menos publicarei. Mas faço de todos vós testemunhas de que as coisas aconteceram e não passei por este mundo sem deixar uma marca, por mais pequena e insignificante que ela possa ser!

Com o fim do Império e o posterior abandono da mina, as escavações subterrâneas acabaram por ser inundadas de forma natural por linhas de água, dando origem à lagoa que hoje conhecemos e que acabou por batizar o próprio povoado de Lagoa Negra.

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