Já foi há muitos anos, mas lembro-me como se fosse hoje! A gente de Barqueiros, freguesia que foi mencionada na minha publicação de ontem, revoltou-se contra a extração do caulino que estava a deixar a parte norte da sua freguesia toda esburacada que nem um queijo suíço.
Quem explora as minas procura lucro rápido e quanto maior melhor, o que fica para trás pouco lhes interessa. Se quem faz o contrato de concessão não for precavido nesse aspecto, é certo e sabido que lhe levam o minério e deixam tudo em pantanas, sem sinal de reposição do estado anterior do terreno explorado.
Como resultado, houve manifestações populares que armaram um circo de todo o tamanho. Veio a GNR, enervaram-se os manifestantes por não verem as suas razões entendidas nem atendidas, ouve-se um disparo e um dos manifestantes cai morto no mesmo instante. Vieram as autoridades levantar o auto da ocorrência e o cadáver do desditoso barqueirense. Antes da retirada do corpo, foi desenhada a sua silhueta com tinta branca sobre o alcatrão negro da EN205.
Essa silhueta ficou ali por muitos anos, como a chamar a atenção de todos para uma coisa que nunca deveria ter acontecido. Todos ali tinham razão, os mineiros que tinham licença para aquilo que estavam a fazer, as pessoas que viam a sua vida e a sua propriedade devassadas pelos mineiros e as autoridades que ali foram chamadas para repor (ou impor) a ordem.
Mas houve alguém que fez asneira, a pessoa que autorizou a concessão e assinou o contrato com a empresa mineira, sem ter em conta os interesses da população de Barqueiros e dos proprietários dos terrenos esventrados para retirar e lavar o caulino. Foi difícil e levou tempo a repor a legalidade, mas acabou por acontecer e a exploração do caulino terminou naquele lugar.
Agora, está a passar-se algo semelhante nas Terras do Barroso, zona de Boticas e Montalegre. Há por ali uns filões de lítio que valem dinheiro e há interessados em ficar com ele. Ontem, as pessoas saíram à rua, mais uma vez, protestando contra quem autorizou a exploração que lhes complica a vida e transforma aqueles terrenos numa espécie de paisagem lunar.
O ministro ou o seu secretário de estado que autorizou a exploração deve ter as orelhas a arder. Eu, aqui, sossegadinho no meu canto, só espero que as coisas não cheguem tão longe como em Barqueiros, não chamem a GNR e não haja tiroteio! E se houver que não morra ninguém!
O cerco e a tragédia: No dia programado para o arranque das escavações, os habitantes locais depararam-se com a vila cercada por um forte contingente da Guarda Nacional Republicana (GNR), destacada para garantir o avanço das máquinas. Durante os intensos protestos e confrontos que se seguiram, Carlos Simões, um jovem manifestante local, foi atingido mortalmente pelas forças policiais.

Sem comentários:
Enviar um comentário