quinta-feira, 8 de outubro de 2026

A minha «Guerra Colonial»!

 Nos meus blogs, desde 2008, tenho escrito e descrito algumas das operações em que estive envolvido na Guerra do Ultramar, ou, mais correctamente, Guerra Colonial, a que os moçambicanos preferem chamar Guerra de Libertação e têm muita razão. Se havia colonos e se queriam libertar deles, está muito bem escolhido esse nome!

Ao voltar ao assunto, tenho que tomar o máximo cuidado para não me contradizer e poder  ter que enfrentar algum leitor mais atento que me chame aldrabão. De qualquer modo, a minha guerra não foi muito complicada e conta-se em meia dúzia de linhas.

Como avancei para o Niassa ao som do primeiro tiro, encontrei uma situação que não era ainda o que se pode dizer uma guerra. Como exemplo disso posso citar um exemplo que ilustra bem o que digo. Todos os sábados, depois do jantar, o comandante da Base rumava a Vila Cabral para uma sessão de cinema, Usava um jipe Toyota de caixa fechada e seis lugares que fazia questão de levar sempre ocupados. Nunca descobri se o fazia por medo de ir sozinho e precisar de protecção, ou se era uma espécie de prémio para quem escolhia para o acompanhar.

O dito terrorismo não tinha ainda qualquer expressão e nós, os fuzileiros, limitávamo-nos a andar de povoação em povoação para perceber que tipo de aceitação tinha a "guerra" entre a população indígena. A PIDE afadigava-se a tentar descobrir indícios de insurreição e quando desconfiava de qualquer coisinha mandava-nos lá investigar. Numa dessas missões o meu camarada de esquadra (grupo de 4 fuzos que funcionam em conjunto) "fuzilou um homem que não obedeceu à ordem de paragem e desatou a fugir, em direcção à sua povoação, onde chegou com as tripas de fora e morreu horas depois.

Um outro dia a Pide requisitou uma secção de fuzileiros para ir controlar uma povoação, onde tinham a certeza que iria ser descarregada uma grande quantidade de armamento vindo da Tanzânia (nesse tempo ainda conhecido por Tanganika). E lá fui eu com os meus 8 camaradas, a que se juntou o oficial que, nessa altura, comandava o pelotão de fuzileiros da CF2, destacado para Metangula, e também o comandante da Base, o famoso Tenente Zilhão, a fazer companhia ao agente da dita polícia política destacado para a missão e a um Sipaio mobilizado para nos servir de guia e intérprete.

Chegamos lá a meio do dia e caímos numa emboscada ao desembarcar, onde poderíamos ter morrido todos, se os "Turras" estivessem mais bem treinados no uso da metralhadora. Por sorte ninguém ficou ferido, mas ao reembarcar o nosso guia, um sipaio do Posto Administrativo de Metangula, foi atingido por duas balas que lhe provocaram a morte instantânea. Uma delas perfurou-lhe um pulmão e a outra levantou-lhe a tampa dos miolos. Eu iria jurar que os turras se focaram apenas nele por nos ter guiado até ali.

A Castor no Plano Inclinado para manutenção

A pequena lancha de fiscalização "Castor" ouvia-se ao longe e os nossos inimigos tiveram tempo suficiente para se preparar, montar as metralhadoras em dois locais distintos, de modo a conseguir um fogo cruzado mais eficaz e devem ter-se rido à brava, quando nos viram desembarcar, quatro homens de cada vez, num pequeníssimo bote de alumínio que a tripulação da lancha usava para vir para terra, uma vez que a lancha ficada fundeada e amarrada a um boia, uma vez que ainda não existia a "Ponte-Cais".

No reembarque e já debaixo de fogo não foi utilizado esse bote, o que seria um autêntico suicídio, e cada um nadou como pode até se pendurar num cabo pendurado no bojo da lancha que não era muito alto. Com a G3 a tiracolo e o camuflado encharcado, além das botas de cano alto calçadas, posso-vos garantir que não era fácil trepar para bordo. O primeiro grupo embarcou e eu fiquei na praia com o segundo a fazer fogo de cobertura para tentar manter o inimigo de cabeça baixa.

É claro que a metralhadora pesada, Oerlikon, na proa da lancha, sempre a martelar os sítios de onde vinham os tiros, fazia mais estragos que as nossas quatro G3 com as poucas munições que leváramos connosco - apenas dois carregadores - e logo que os meus camaradas tomaram a seu cargo fazer o fogo de cobertura, a partir do convés da lancha, metemo-nos nós na água e nadámos até aos cabos pendurados da lancha. Mas nos agarramos a eles, o comandante mandou fazer marcha â ré e arrastou-nos para o meio do lago e fora do alcance do fogo das metralhadoras dos turras.

O Pide estava apavorado e tinha gasto as 32 munições da FBP que levava com ele às primeiras rajadas. Desarmado, com o guia já morto e balas a zumbir à volta das orelhas, imagino que tenha pensado não sair dali vivo. Mas saiu e lá fomos até ao Cobué para descarregar o morto e comer o almoço, como estava planeado. De tarde, os oficiais reuniram-se com o patrão da lancha e estiveram a equacionar o regresso àquela praia para ir em perseguição dos turras e, talvez ainda, ser capaz de confirmar e/ou apreender o tal armamento vindo do Tanganika.

A falta de munições, a falta de vontade de partir à aventura que poderia prolongar-se pela noite dentro, com o Pide desarmado (nós não levávamos munições do calibre da FBP) e o Sipaio morto, a decisão acabou por ditar o regresso a Metangula para reportar o que se tinha passado e agurdar ordens do Comando Naval, na capital.

Três semanas depois desta ocorrência, regressei a Lourenço Marques e depois a Lisboa, pensando ter deixado para trás essa guerra que nada significava para mim. Mal sabia eu que seis meses depois, lá estaria de novo para novas experiências e aventuras que pensava reportar aqui, mas deixarei para uma próxima crónica, pois esta já se fez longa demais!

1 comentário:

  1. O que se passou em Moçambique - como aliás em todas as nossa Províncias Ultramarimas - foi um tipo de guerra não convencional no qual o principal estratagema eram emboscadas e porem-se na alhêta antes da reação. Maltrapilhos recrutados pela Frelimo e apoiados pela URSS & China. O tal partido socialista que mandou as prostitutas para campos de concentração e fez desaparecer a oposição. A morte de Ana Simão é um exemplo da bandalhice do que se passou logo após a Independência. Um partido que expulsou os portugueses e levou Moçambique a um dos mais pobres & corruptos países do mundo. Dito isto - é hoje óbvio que a maioria dos nossos ex:combatentes que foram combater o socialismo em Africa não aprenderam porra nenhuma. Passei 6 meses no Cobué e a única coisa que me atacou foi o paludismo... e dou graças a Deus por isso! Excelente post.

    ResponderEliminar

A minha «Guerra Colonial»!

 Nos meus blogs, desde 2008, tenho escrito e descrito algumas das operações em que estive envolvido na Guerra do Ultramar, ou, mais correcta...