A Isabel acabou casada com um vizinho, empregado na construção civil e, alguns anos depois, veio morar aqui para a vizinhança. Cada vez que nos cruzávamos no caminho, ela não desviava o olhar e parecia-me que me recriminava por não ter levado o namoro mais longe e ter sido obrigada a casar com o "trolha". Ela não deve ter sido muito feliz com ele, nunca os vi juntos na rua. Naquela noite de fogo de artifício, foi mais ela a tomar a iniciativa do que eu próprio, aconteceu um pouco de marmelada, mas os meus pensamentos estavam com a moreninha. Morena com quem namorei cerca de dois meses, até a minha prometida regressar da Alemanha e termos decidido casar.
Antes desta Isabel houve outra, ainda em Lourenço Marques, que pouco ou nada adiantou na minha vida amorosa. Apresentado por um camarada fuzileiro que vivia atrás de qualquer rabo de saia que lhe cruzasse no caminho, comecei a sair e passar as tardes de domingo com um grupinho de jovens de que fazia parte essa Isabel, de corpo franzino, caixa de óculos e que parecia necessitar de uma autorização expressa para abrir a boca e dizer qualquer coisa.
Ela tinha como amigas mais chegadas duas irmãs, ambas que nada tinham ficado a dever à deusa da formosura, e palradeiras de cansar um santo. Por exclusão de partes, comecei a pôr-me ao lado da Isabel sempre que íamos dar uma volta e quando nos sentávamos numa esplanada, coisa frequente naquele clima, ocupava a cadeira mais chegada a ela para marcar posição. O namoro acabou por pegar e durou uns meses até a guerra me obrigar a sair da cidade e rumar ao norte, onde o som de rajadas de metralhadora, ou rebentamento de granadas e minas eram a música a que tínhamos direito.
A outra Isabel, a quem tratava por Belita, era uma senhora professora, uns quatro ou cinco anos mais velha que eu. Conheci-a antes de celebrar o meu vigésimo aniversário e foi ela que me ensinou aquilo que ainda não conhecia do sexo. Vivemos dias e noites tórridas, cada vez que resolvo fazer o inventário das minhas aventuras não me posso esquecer dela. Só houve na minha vida três mulheres que me tiravam do sério, esta pela sua experiência, uma outra pela sua juventude, nos seis meses que passei em Portugal, no ano de 65, e a última uma ninfomaníaca francesa divorciada que morava em Calais e vinha, duas vezes por ano, passar férias a Portugal.
A Belita era uma namorada bastante possessiva e, a páginas tantas, comecei a perceber que me limitava os horizontes. Um dia peguei-me de amores com uma amiga dela, a Verónica, o que deu azo a uma guerra que pôs em alvoroço toda a capoeira. As amigas separaram-se em dois grupos, um a favor da Isabel e outro que defendia a Verónica com unhas e dentes. Vi-me no meio dessa guerra sem saber muito bem o que fazer.
Pouco tempo depois, a Verónica foi viver e trabalhar para a cidade do Cabo e eu que estava a poucos meses de acabar a minha segunda comissão, em Moçambique, comecei a equacionar a hipótese de pedir baixa e segui-la, com casamento e tudo no horizonte. Mas, como diz aquele ditado popular, o homem põe e Deus dispõe, sem a Verónica por perto, um dia cruzei-me com a Belita e acabámos juntos na cama. Mas tinha chegado a hora de decidir o meu futuro e, entre todas as outras possibilidades, decido regressar a Lisboa e deixar as duas, Belita e Verónica, esquecidas em África.
Anos mais tarde, já depois da independência das nossas colónias africanas, recebi a vista de um retornado que me veio entregar um cartão da Belita, com um endereço de Londres, dizendo que ela gostaria de receber notícias minhas. Mas aí já eu era um homem casado e pai de três filhos e não havia espaço para aventuras. Divorciar-me e viver outra vida, isso só me passou pela cabeça, quando nasceu a minha filha mais nova (fora do casamento), mas não o fiz por achar que tinha mais a perder que a ganhar.
E foi assim a história das minhas 3 Isabéis!!!

Eras mesmo malandro nos namoros:))))
ResponderEliminarBeijos e um bom domingo!
Bom dia
ResponderEliminarAs suas histórias têm sempre algo que nos leva sempre a um patamar aventureiro em que nunca sabemos o final.
JR
Good Lord! Se calhar em Junho até me cruzei com a Verónica sem o saber. Essas histórias merecem um livro.
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