domingo, 9 de agosto de 2026

Eu no aviso!

Este era o líder da classe a que deu o nome

Os Avisos de 1ª Classe da Marinha de Guerra Portuguesa foram navios de construção britânica (lançados à água em 1934), vocacionados para a defesa e soberania no Império Ultramarino e apoio a operações anfíbias.
Fazia parte desta categoria a Classe Afonso de Albuquerque, que integrava:
NRP Afonso de Albuquerque (Líder da classe, abatido ao efetivo após o histórico combate em Goa em 1961)
NRP Bartolomeu Dias
Estes navios de guerra coloniais, com cerca de 100 metros de comprimento, foram fundamentais para a presença naval nos oceanos Índico e Pacífico. Mais tarde, após a Segunda Guerra Mundial, foram reclassificados como fragatas (número de amura "F470").

Bartolomeu Dias, a nova fragata que substitui aquela em que
eu fiz o meu baptismo de mar, no Oceano Índico

Ontem, estive ocupado demais para visitar os blogs! Cada um sabe de si, lá diz o ditado, e parece-me que vocês não me vão eigir uma justificação por escrito! Cá estou de volta e a pensar no que fiz, no já longínquo ano de 1963! Eu tinha apenas 19 anos e aconteceu muita coisa nesse ano, umas posso contar, outras é melhor não!

Estava há poucos meses em Moçambique, quando o Comando Naval deu ordens para embarcar um pelotão de fuzileiros e rumar a norte, talvez Porto Amélia, onde mais tarde tivemos uma Base com muitos fuzileiros em apoio da guerra que vinha do vizinho Tanganika, antiga colónia alemã e depois britânica que já era livre, desde 1961.

Na minha cabeça já imaginava combates e sentir o cano da minha G3 a escaldar, depois de tantas munições ter queimado, pois todo o mundo esperava que o terrorismo que rebentara, em Angola, dois anos antes, começasse a dar sinais de vida também, em Moçambique. Felizmente, não aconteceu nada disso e teria que esperar mais um ano e meio para ouvir tiros e sentir as balas a zunir sobre a minha cabeça.

Aquela viagem foi tão só para preencher a agenda da tripulação que tinha que mostrar serviço, no tempo que passava nas nossas províncias ultramarinas. No segundo dia de viagem, já estávamos em Inhanbane, com o Bartolomeu Dias, o velho, irmão gémeo do Afonso de Albuquerque que perdemos para a Índia, no fim do ano de 1961, acostado ao pequeno cais de madeira que ali havia. Nas fotos acima podem ver o velho e o novo navio que nada tem a ver um com o outro a não ser o nome.

Os velhos Avisos de 1ª, como os dois gémeos mencionados acima, tinham a particularidade de ter convés de madeira, muito leves e muito altos, o que os fazia dançar sobre as ondas que nem bailarinas tailandesas. Eram o horror dos marinheiros de primeira viagem que enjoavam mal punham os pés a bordo. E isso traz-me à lembrança o meu camarada Peniche da CF2, grumete artilheiro que foi connosco para a guerra para tomar conta da MG42. Ele enjoava de tal maneira que não comia nada, ou quase, em todo o tempo que durava a viagem. Passava o tempo a "gritar ao Gregório" com a cabeça fora de borda!

Depois de Inhambane rumámos à Beira e daí a Nacala e Ilha de Moçambique. Nem vos digo nem vos conto (que ainda posso ir preso), mas aquilo foi um verdadeiro cruzeiro no Índico, com os golfinhos na proa a desafiar os 15 ou 16 nós de velocidade que o velho aviso (de antes da II Grande Guerra) conseguia sacar das suas máquinas. Só a paragem na ILHA dava uma reportagem especial com fotos e tudo que trouxe de lá. Aliás, acho que já publiquei isso no meu velho blog da Companhia 2!

No regresso voltámos a parar na Beira, onde passámos uma noite e fomos a terra esticar as pernas. O pessoal da tripulação já conhecia aquilo e foram para o Moulin Rouge, para onde arrastaram alguns estreantes fuzileiros do meu pelotão. Eu fui ver a cidade, comi uns camarões e bebi umas cervejas, o que já foi mais do que aquilo a que estava habituado. O último trecho da viagem foi o mais sossegado, puseram-nos a trabalhar na "manutenção do navio" e a mim calhou-me ser calafate.

Em breve estávamos de novo em casa, depois da manobra de desembarque que fez a felicidade do Peniche e nos deixou a todos com saudades. Repeti essa viagem, umas duas ou três vezes, nos quatro anos que passei em Lourenço Marques. A minha última viagem no Índico foi já num navio civil (transporte de tropas) que me descarregou em Nacala, onde apanhei um comboio para as margens do Lago Niassa, onde passei o último ano da comissão, antes de regressar a Lisboa!

 

4 comentários:

  1. Ontem, este blog teve mais de 300 visitantes! Imagino que andavam à minha procura por eu não ter dado sinal de vida! Eh, eh, eh!!!

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  2. Segundo me lembro a CF2 esteve uma semana no Quartel dos Paraquedistas na Beira à espera de embarque na TAP. Não cheguei a entrar no Moulin Rouge por falta 'de kakau' mas conheci a Estação Ferroviária que para a epoca era uma Obra Espectacular. Como curiosidade todas as viagens que fiz no Indico foi com os nossos NRP's.

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  3. Poucas pessoas se podem gabar de ter tido uma vida tão cheia e bem vivida quanto o meu amigo!

    Isso das 300 visitas foi para confirmar se ainda estava no lado social da coisa... :))

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  4. Ler este texto funciona ao mesmo tempo como um estímulo para revisitar as próprias vivências.
    Abraço ainda das margens de rio Reno que enfrenta actualmente uma seca histórica severa.

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