domingo, 23 de agosto de 2026

Elas eram quatro!

 Tenho muitos álbuns de fotografias, daqueles que se usavam antes de haver uma pen ou a nuvem, onde agora a Google ou a Microsoft, para não falar na Meta, as guardam para nós. Ontem, fui buscar o meu mais antigo, o número 1, onde pensava ter guardado uma foto que não encontrei. De caminho dei de caras com uma das minhas apaixonadas do tempo que vivi em Lourenço Marques.

Quando me casei, a minha jovem mulher deitou as mãos aos meus álbuns e rasgou as fotos de todas aquelas que lhe cheiravam a rival. Estive para me zangar a sério por causa disso, mas decidi que o casamento era mais importante que umas fotos de umas tantas mulheres, algumas das quais nunca significaram nada para mim.

Um homem solteiro ou tem namorada ou anda à procura de uma. E quando uma passa à história volta ao "campo de batalha" à procura de outra que substitua a que se foi. Estava eu numa dessas fases, quando aceitei o convite de um camarada meu para o acompanhar numa tarde de domingo. Ele andava de olho numa catraia que saía sempre acompanhada com 3 amigas. Ele conhecia-a do trabalho, atrás de um balcão, mas só aos domingos, quando não estava de serviço de sentinela, podia passear com ela e dar-lhe a mãozinha, como era hábito nesses recuados tempos do século XX.

Não se sentia confortável no meio de 4 mulheres, todas na casa dos 20 anos, e pediu-me para o acompanhar, segredando-me que todas eram livres e talvez eu pudesse arranjar "negócio" com alguma delas. Foi apenas a primeira vez que o fiz, outras se seguiram, nos meses seguintes, antes de a guerra me levar para o norte e para o meio do mato, onde só havia negrinhas embrulhadas em floridas capulanas.

Das 3 restantes, descontada aquela que estava na lista dele, engracei com uma bonitinha de nariz arrebitado, mas pouco tempo depois desanimei, quando descobri que ela usava uma prótese dentária com os dois incisivos e tinha o costume de a fazer oscilar com um movimento, talvez involuntário, da sua língua. Qualquer homem "arrefece", quando pensa em beijar uma miúda com prótese dentária!

Das outras duas, uma era poveira, filha de um mestre da Capitania do Porto de Lourenço Marques e falava comigo com o à vontade de uma filha da terra. A outra era irmão da pretendida pelo meu camarada fuzo e parecia-me séria demais para alinhar em namoricos de ocasião. Por isso eu nunca "me fiz ao piso" e acabei por sair, algumas vezes sozinho, com a poveira.

Fomos para o mato e regressámos, cerca de um ano depois, mas não voltei aos passeios domingueiros de antigamente. No dia antes de embarcarmos no Vera Cruz para regressar a Lisboa, o meu camarada marcou um encontro com a namorada para se despedir e mais uma vez me desafiou a ir com ele. Beijinho para cá, beijinho para lá, promessas de ficar a escrever umas cartas, a irmã séria meteu-me uma foto na mão com uma dedicatória pelos meus 24 anos que comemoraria durante a viagem.

E quando aportámos a Luanda, tinha uma carta dela á minha espera! Talvez ela pensasse que a irmã viesse a casar com o meu camarada e andando nós juntos, quem sabe, ela tinha uma hipótese de ficar comigo. Sabe Deus e mais ninguém o que vai na cabeça de uma rapariga daquela idade e cujo sonho é casar, muitas vezes sem poder escolher o marido mais conveniente. Eu limitei-me a colar a foto dela, uma grande com a tal dedicatória que sofreu a censura da minha mulher, e uma mais pequenina que escapou à fúria do ciúme e escapou para me fazer recordar esta história.

Tal como reza o ditado, o homem põe e Deus dispõe, e quis o destino que alguns anos depois, essa amiga poveira do grupo da 4, aparecesse aqui na Póvoa e com uma filha nos braços. Pelos vistos, o namoro que não vingou comigo acabou por vingar com outro marujo que prestava serviço no Comando Naval e ela acabou por ficar grávida. Depois de muita guerra com o pai, por causa disso, acabou por regressar à Metrópole, talvez combinada com o pai da filha para se casarem, depois de ele acabar a comissão.

O destino tem destas coisas, ela acabou por fazer amizade com a minha mulher e foi-lhe logo confidenciando que tínhamos tido um breve namoro nesses tempos dourados da juventude. Felizmente não houve tempestade por causa disso e, numa altura em que nos encontramos sem a presença da minha mulher, falámos, livremente, sobre essas tardes domingueiras em Lourenço Marques e ela confidenciou-me que essa amiga que me deu a foto com dedicatória era "apaixonadíssima" por mim.

Coitada da Gina (era assim que se chamava), primeiro viu o meu jogo com a amiga dos incisivos postiços e depois as saídas com a poveirinha, como havia ela de contra atacar e ficar com o pretendente livre do grupo. Ela era do género envergonhado e nunca daria o primeiro passo e eu não tive tempo de perceber os seus sentimentos, a minha prioridade era a guerra, tudo o resto era secundário!

Eu com a poveira à direita e a minha
primeira escolha, à esquerda!

sábado, 22 de agosto de 2026

Dusseldorf!

 

No tempo em que que a minha (?) empresa nadava em dinheiro, última década do século XX, abrimos um escritório nesta linda cidade alemã. Na verdade era um apartamento enorme, em que o responsável pelo mercado da Alemanha e Benelux, assentou arraiais para estar mais à vontade e poupar uns cobres em contas de hotel.

Alugar um apartamento de 5 divisões num local assim privilegiado não deve ter ficado barato, mas nessa altura em que o mundo dos têxteis estava em retracção acelerada não se olhava a gastos para tentar segurar os clientes. O meu amigo Tony, filho de emigrantes na Bélgica e grande poliglota, era o encarregado dos negócios. As feiras de moda, ora em Colónia ora em Neuss, davam-lhe a oportunidade de pescar uns clientes que levava para o escritório, onde tinha montado um salão de exposição com a nossa colecção, e puxar pelo negócio. Estive lá com ele na altura da inauguração.



No ano seguinte, durante uma viagem que fiz para visitar algumas fábricas de tecidos, na zona da fronteira dos Países Baixos (cuidado, agora não se pode dizer Holanda), aproveitei para passar de novo pelo escritório, saboreamos ambos um copo de whisky velho, daquele que era reservado para os bons clientes, e perguntei ao Tony por que razão as encomendas não tinham ainda começado a chegar a Vila do Conde. A vida está muito difícil, disse-me ele, os clientes preferem voar para Hong-Kong e deixam-me aqui às moscas.

Quando chegámos ao ano de 1995 e os números começaram a tender para o vermelho, foi preciso cortar algumas gorduras e esse escritório foi um dos primeiros sacrificados. O Tony passou a representar o mercado francês que também não durou muito tempo, Marrocos, Argélia e Tunísia trabalhavam a metade do nosso preço, e acabaria por despedir-se e ir trabalhar por conta própria, antes da virada do século.

Nunca passei um fim de semana na cidade de Dusseldorf, a minha base era em Colónia, até por causa da minha filha que morava para esses lados, e não tive grandes ocasiões para explorar a cidade que dizem ser muito bonita. situada nas margens do Reno, onde se ergue imponente a Torre da TV que apenas vi ao longe!


sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Sinto-me ... anestesiado!

 Não sei o que a Drª Patrícia mandou meter no pacote que a farmácia entregou ao enfermeiro para me injectar nas veias!

Aquilo que sei é que ando meio adormecido, desde segunda-feira. dia em que passei oito horas de papo para o ar no hospital de dia do HPH. Ando aos sss, mal me equilibro, visão diminuída e sem força nas canetas!

Obras em casa, pó por todos os lados, pirei-me para a rua mal acabei de engolir o pequeno almoço. Queria vender o meu carro número 3, marquei encontro com um comprador que pretendia levá-lo por menos de metade do que ele vale, mas acabou por nem aparecer. De certa maneira fiquei contente!

Parei num boteco para almoçar uma carne estufada que me saltou à vista na ementa pendurada na porta. Afinal era uma espécie de rojões à moda da casa que mastiguei até me cansar e desistir do resto. A acompanhar trazia uma folha de alface e duas meias luas de um tomate já maduro demais!

Qual sonâmbulo em noite de pouco sono dirigi-me para o local do encontro, esperei, telefonei, não fui atendido, voltei a telefonar, de novo sem resposta, despedi-me do carrito que lá ficou triste e cheio de pó à espera de alguém que não tenha dinheiro para comprar coisa melhor. Regressei a casa e estiquei-me ao comprido até à hora em que me tinham prometido um jogo épico na Luz.

Mastiguei uma sandes de presunto, empurrei-a pela goela abaixo com um copo de Pias seguida de um creme de legumes que a minha sócia fez o favor de me preparar e fui para a sala ver o Benfica no tal jogo que, por causa dos 7 a 0 de segunda-feira, prometeram que seria um estrondo. Não foi, mas ganhámos e isso era o que se pretendia, ou seja, tudo está bem, quando acaba bem!

Só que comigo, sinto que nem tudo está bem, sinto-me como se estivesse dentro de um corpo que não comando nem domino. Vou ter que esperar até 15 de Setembro para repetir o tratamento e ver se a reacção é a mesma. Mas, entretanto, espero acordar desta modorra em que me sinto afundado!

Bom fim de semana e boas férias a quem tem direito a elas! 

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Eu comentador!

 Não faltam notícias que merecem o meu comentário, só fico triste por ninguém pagar o serviço que faço em favor da sociedade! Já ouvi dizer que trabalhar para aquecer, mais vale morrer de frio (com mais 2 versos a rimar, faria de mim poeta com brio).

O Trump continua com as palhaçadas do costume, declarou a zona do Estreito de Ormuz como território americano e suspendeu as super tarifas aplicadas ao Canadá. Quer isso dizer que já desistiu de fazer desse país o 51º estado da União? Ele ainda tem o assunto da Venezuela em Banho Maria e nem quero falar da Groenlândia ou de Cuba que esses dossiers correm o risco de ficar por resolver, pois o seu mandato vai a caminho do fim e não haverá meio de alterar isso.

Com todas essas avenças e desavenças, continua o petróleo em alta e nós, pobres lusitanos, a pagar pelos pecados de outros. O nosso ministro das finanças e mais o seu chefe, que é quem em tudo manda, devem esfregar as mãos de contentes, pois sem fazerem o menor esforço vêem o dinheirinho a fluir para os cofres públicos, tal com fonte que nunca seca lá para os lados do Gerês!

A bagunça nos hospitais voltou com a entrada de férias dos profissionais de saúde. Nada de novo nem de nos deixar surpreendidos, não se consegue fazer com 50 aquilo que, muito dificilmente, se faz com 100! Deitar a culpa à senhora ministra também não serve de nada, o melhor será proibir as pessoas de ficar doentes, durante o tempo de férias do pessoal da saúde. Voltar aos velhos hábitos das mezinhas caseiras que usavam os nossos avós!

O assunto dos exames, das revisões, da falta de notas e da sombra negra que paira sobre o início do novo Ano Lectivo tem andado um pouco esquecido. Talvez seja a folga que o Ministro da Educação precisa para escapar a uma possível revolução no governo que a oposição exige cada vez com mais força. São 3 os ministros com a corda na garganta e veremos se escapam ao julgamento popular.

A última bronca que veio a lume tem a ver com o excedente que passou a deficit na Segurança Social. Eram 2 mil milhões a mais, agora são 2 mil milhões a menos. Alto lá com a festa, estamos a falar de 4 mil milhões de diferença. E o culpado quem é? Aquele que decidiu que mais ninguém descontaria para a CGA e todos os trabalhadores ficariam abrangidos pela Segurança Social. Já não recordo quem foi, talvez o Sócrates, mas também não vou perder tempo a investigar isso. Quando se faz uma reforma essas tem que ser planeada em todo o detalhe e acompanhada até ao fim.

O problema é que os mais altos ordenados da nação portuguesa, os dos funcionários públicos, descontavam para a CGA e por ela foram reformados e continuam a receber a sua reforma todos os meses. Sem dinheiro a entrar e com a inflação a fazer subir a despesa, ano após ano, é natural que o deficit da CGA se vá agravando. Mas sempre esteve previsto que haveria uma parcela do Orçamento de Estado para cobrir essa falha.

Sempre esteve previsto que o dinheiro ia faltar
e como isso seria resolvido!

Por essa razão, não podem agora vir atirar areia para os olhos dos portugueses dizendo que a Segurança Social tem um deficit de perto de 2 mil milhões, pois isso é mentira. As contas da Segurança Social devem ser mantidas aparte das da CGA e cada um que aguente com os seus lucros ou prejuízos. De momento, com a participação dos muitos imigrantes que têm vindo a ser empregados, tanto na agricultura, como na indústria ou serviços, a situação da SS é positiva. Os outros que se amanhem como puderem!

Comecei com o Trump e vou acabar com o Putin, duas faces da mesma moeda, que vêem o mundo pelo mesmo prisma e se regem pelas mesmas regras. Desde que lucrem com isso, para eles qualquer solução é boa. Pois, o grande urso siberiano tem visto sua vida a andar para trás, com misseis e drones a cair no seu quintal, coisa que ele estava longe de imaginar como possível. E vai culpando os ingleses, além dos portugueses, por estarem a fornecer drones, ou parte deles, ao presidente Zelensky que os põe a voar em direcção a Moscovo.

Não sabemos o quanto pode ainda durar a Guerra da Ucrânia. Os russos parecem não ter força suficiente para subjugar os ucranianos e estes vão buscar capacidade de resistência só Deus sabe onde. Têm mais um longo inverno pela frente e, se não forem os da casa a roer a corda ao presidente/actor, estou convencido que ressurgirão, na próxima Primavera, mais fortes e resilientes que nunca!

Põe-te a pau Vladimir que começas a ter as calças coladas ao cu!!!

Ao ataque!

À defesa!

terça-feira, 18 de agosto de 2026

E assim vai a vida!

Ontem, passei o dia todo no hospital, de papo para o ar! A Drª Patrícia, para evitar aquilo que se passou nos dois últimos tratamentos, aumentou o volume de líquido contido na embalagem que me toca a mim, de modo a diluir a droga melhor que me injectam no corpo. Ao mesmo tempo reduziu de 200 para 150 a velocidade de injecção, tendo como resultado que aquilo que demorava 3 horas e meia passou para quase 8 horas!

Mas isso agora não interessa nada! Cenas tristes para trás das costas! Logo que cheguei a casa jantei e preparei-me para ver o que fazia o Benfica, depois de ter empatado, em casa, com o recém promovido à primeira Liga, Académico de Viseu.

Considerando que o Benfica tinha de se justificar, perante os seus adeptos, do mau resultado da primeira jornada, eu esperava um bom resultado, em Rio Maior, frente ao Casa Pia, mas nada que se assemelhasse aso 7 a 0 que acabaram por acontecer.

Outra coisa que quero deixar claro é que não vou à bola com nosso ponta de lança grego e tenho rezado para o venderem e trocarem por outro mais expedito dentro da grande área. No entanto, depois de ter feito um poker no jogo da eliminatória para a Liga Europa, ele conseguiu, ontem um hat-trick com golos à ponta de lança. Tenho que continuar a observá-lo e repensar as minhas prioridades!

 Mais duas semanas e encerrará o mercado de transferências. E o Benfica ainda não comprou o que lhe falta. Vender tem vendido, mas comprar, nada que isso custa dinheiro e o Benfica está teso. O Rui já teve que emitir 2 empréstimos obrigacionistas e não se pode meter noutro. Sem dinheiro da Champions e a conta bancária a testar mínimos de sempre, ele não se pode esticar muito.

Entretanto, os comentadores, em especial os da Média Livre, não o largam com a história do Palhinha. O Palhinha é que é bom, o Palhinha é o único que encaixa na posição 6 e o Marco Silva não quer nenhum outro para aquele lugar, dizem eles. Mas o Palhinha é muito caro e ganha muito dinheiro, nem que o Bayern o deixasse vir a custo zero, o Rui Costa deveria aceitar. Só na condição de reduzir o seu salário para um terço do que ganha na Alemanha isso seria aceitável para o Benfica.

O problema imediato do Benfica é escolher outro alvo e deixar de pensar em loucuras ou ouvir a voz dos comentadores da televisão. O Benfica gere-se de dentro para fora e nunca de fora para dentro, a opinião de quem não pertence ao clube não conta para nada e a maior parte das vezes é usada apenas para criar confusão e desestabilizar,

Um comentador, meu conhecido de há muitos anos, disse, há momentos, que o Benfica está a vender jovens jogadores da sua formação, com provas dadas nas competições internacionais da passada época e a comprar lá fora jogadores que em nada são melhores que aqueles que estão a vender. Acredito que ele sabe do que fala e até pode ter razão, mas aí funciona aquele ditado que afirma que: - santos da casa não fazem milagres!

Os jogadores vindos de fora são obrigados a esforçar-se mais para ganharem o seu espaço na equipa e sonhar com uma possível transferência para um grande europeu e fazer o contrato da sua vida. Talvez isso explique a opção do Benfica em vender os seus jovens talentos, dando-lhe também a eles a possibilidade de construir um futuro lá fora.

Ao Benfica faltam ainda alguns jogadores chave, a começar pela defesa e com a saída do Dedic, ontem, para Inglaterra, o problema agrava-se. Espero que o Rui Costa abra os olhos e os ouvidos para o que se passa ao seu redor e faça boas escolhas, antes que este mês chegue ao fim, depois será tarde e só poderá torcer a orelha e deitar culpas a si próprio!

Carrega Benfica!!!



domingo, 16 de agosto de 2026

O José, puto da Frelimo!

 


Quando regressei a Metangula, no último trimestre de 1966 - a data não recordo e já fui dar uma espreitadela à Caderneta Militar, mas nada consta nela sobre o nosso destacamento da Machava para Metangula - encontrei lá este miúdo que deveria ter 6 ou 7 anos de idade e tinha sido trazido pelos fuzileiros do DFE5 (salvo erro) da zona de Meleluca, onde foi encontrado a vaguear sozinho, durante uma operação realizada para controlar os movimentos da guerrilha da Frelimo.

Hoje, logo que entrei no Facebook, vi uma publicação de algum ex-combatente da Guerra Colonial, com um miúdo negro ao colo, afirmando que tinha sido apanhado no mato, em Angola, enquanto ali prestava serviço.

Logo surgiram montes de comentários, uns mais parvos que outros, a respeito da criança, quem era, de onde viera  quem a levara para onde. E, como eu já desconfiava, logo surgiram os comentários de quem, como eu, esteve em Moçambique e conhece a história de dois miúdos negros que os fuzileiros recolheram do mato, entre outros homens e mulheres por serem cativos ou ajudarem os guerrilheiros da Frelimo.

O primeiro desses miúdos era de Cabo Delgado e foi levado para a Base Naval de Porto Amélia, onde estavam aquartelados os fuzileiros. Tanto quanto li, nas redes sociais, esse miúdo foi trazido para Portugal (metropolitano) pelo comandante d DFE (se bem recordo o DFE6) que o trouxe do mato e não o quis deixar abandonado na cidade grande sem qualquer família. Até certo ponto, considerava-se responsável por ter sido ele a capturá-lo e trazê-lo para a cidade. Foi matriculado na 1ª Classe e fez toda a Instrução Primária obrigatória. Teve uma vida normal e, tanto quanto recordo dessa história, já faleceu, há bastantes anos.

O segundo miúdo é esse que podem ver na foto acima e com quem convivi, durante cerca de 15 meses. Como os fuzileiros especiais andavam sempre no mato e não tinham condições para cuidar dele, ele encostou-se ao pessoal da minha Companhia e vivia ao mesmo ritmo que nós. Arranjaram-lhe uma farda, apresentava-se na formatura e acompanhava sempre algum dos meus camaradas, tanto nos serviços como nas refeições. Os mais habituais, com quem ele se sentia melhor, eram o Américo e o Ângelo (com ele na foto) que aparecem em várias fotos que constam dos meus álbuns de recordações.

No Facebook, criei um grupo a que dei o nome de «Amigos de Metangula», onde a certa altura apareceu uma fotografia do José. Logo começaram os comentários de quem não conhece a história, mas não consegue ficar calado e, como seria de esperar, começa o chorrilho de asneiras do costume. Como estou em ligação com muita gente de Metangula, uns muito jovens que não têm memória destas coisas e outros mais velhos que já têm recordações da época pós-independência, resolvi investigar e tentar descobrir que destino teria levado o puto da Frelimo.

 Comecei por ter notícias da vida dele, em Metangula, na época pós independência que me levaram a perceber que ele era tomado como homosexual ou um pouco tresloucado. Depois descobri que ele vivia (e ainda vive) na capital do distrito sob a protecção de uma familiar que o ajuda na sua relativa miséria. Foi ela que me contou aquilo que sei da história que, sem ter quem a confirme como verdadeira, aceito como tal.

Depois de ter vivido a sua juventude, em Metangula, durante os conturbados tempos da Guerra Civil que opôs a Frelimo à Renamo, o José partiu para Meleluca - povoação localizada a meio caminho entre Metangula e Meponda - na tentativa de encontrar a sua mãe ou alguém da família a quem se encostar. Não encontrando ninguém, ele rumou a Lichinga (actual nome da nossa velha Vila Cabral) e tendo vivido muito tempo com a tropa portuguesa foi aceite (quase) como se de um funcionário público se tratasse.

Não sei se pago ou, simplesmente, protegido pelas entidades públicas, ele viveu assim até à reforma e acabou a viver em casa de uma senhora que é funcionária pública e sobrinha da desaparecida, durante a guerra, mãe do José. Se, em 1967, ele tinha 7 anos, terá nascido em 1960 e tem, actualmente, 66 anos. Segundo a sua prima (Rosa de seu nome e também ela um pouco vítima da Guerra Colonial, pois é filha de um soldado português que por lá andou a combater a Frelimo) ele que já tinha sido dado como meio louco, quando jovem, agora não diz coisa com coisa nem fala com ninguém

A Rosa deu-se ao trabalho de lhe vestir um fato (velho e desbotado) para lhe tirar uma foto que me enviou para eu ilustrar a sua história que já publiquei no meu antigo blog, ou no Facebook, já não recordo bem. Tal como agora, fui motivado pelas publicações que vieram afirmar coisas que sei não serem verdadeiras e soltaram a minha verve!

Auto-doc, conhecem?

 Como deixei aqui reportado, partiram-me um dos espelhos do carro. Encarreguei o meu pintor de resolver o problema, mas ele não conseguiu ar...