Assim canta o José Cid e faz-nos felizes a todos os que apreciam a sua música!
Neve é uma palavra muitas vezes usada no singular e raramente no plural. Neves há as que são eternas nos Himalaias e pouco mais. Mas Neves é também um nome que me traz algumas recordações e delas vos decidi falar nesta minha publicação.
Maria das Neves era a telefonista da empresa que me contratou, em Agosto de 1971. O PBX ainda era daquele tipo de cavilhas que se enfiavam no orifício correspondente a cada uma das poucas linhas telefónicas que tínhamos ao nosso dispor. Um ano depois da minha entrada, fizeram-se grandes obras na minha (?) empresa, o velho PBX deu lugar a uma moderna cabine telefónica e a Neves que não falava inglês depressa foi substituída por outra mais moderna que sabia atender os clientes, maioritariamente, ingleses, com um "good morning" seguido de "a moment please".
A mãe da Neves pariu muitos filhos, mais filhas que filhos em que uma delas sofria de paralisia numa das pernas. Família pobre a morar no, à data, único bairro camarário tinha o pai como sustento da família, a mãe ficava em casa a tomar conta dos filhos. Ele era o bilheteiro no Mercado Municipal e entre a gente mais pobre da Póvoa era uma espécie de general com o seu boné de pala. A filha semi-paralítica sentava-se à porta de casa, sempre que o tempo o permitia, para ver passar a gente.
Neves era também o nome de uma personagem importante que conheci, em Metangula, pequeno povoado nas margens do Lago Niassa, em Moçambique, quando para lá fui enviado, em Setembro de 1964, logo no dia seguinte àquele em que foram disparados os primeiros tiros pelos turras da Frelimo.
Recuando no tempo, cerca de ano e meio, o Sr. Neves morava em Vila Cabral e trabalhava para um empreiteiro que foi contratado pelo Ministério da Marinha para construir a Base Naval de Metangula que era uma verdadeira cidade de betão no meio do mato africano. Acabadas as obras, convidaram o homem que era serralheiro de profissão a ficar na Base, como encarregado das Oficinas Navais que seriam de importância capital num futuro próximo, quando começou a ser formada a Esquadrilha de Lanchas do Niassa, a partir de 1965.
O Sr. Neves tornou-se uma pessoa importante, quando fisgou a criada do comandante e se casou com ela, trazendo ao mundo um rebento do sexo masculino, o Marinho, que ainda hoje vive em Lichinga, actual nome da velha Vila Cabral do tempo colonial. A importância do Sr. Neves cresceu, quando ele abriu um Bar-Restaurante, quase em frente da Porta de Armas da Base e começou a arrecadar o pré da marinhagem, tal como se da Caixa Geral de Depósitos se tratasse.
A esse negócio acrescentaria uma padaria, algum tempo depois, e tornou-se o suporte da população negra, depois da independência, só regressando a Lichinga, quando o peso dos anos a tal o obrigou, deixando o negócio abandonado por falta de quem se interessasse ou tivesse dinheiro para isso. Ele faleceu, há cerca de dois anos, e os edifícios do Bar e da Padaria continuam de pé, à espera de quem os saiba aproveitar.
A minha história e a desse senhor cruzam-se no dia em que lhe roubei um galo de estimação que era o ai-jesus da sua mulher, Maria, ex-criada do comandante Zilhão e actual cozinheira do restaurante. Aliás, ela era empregada e patroa de si própria, uma vez que o marido trabalhava para a Marinha, durante o horário normal em todos os dias úteis. Para mal dos meus pecados encarreguei-a de me cozinhar o galo que eu e uns quantos amigos comemos sentados à mesa do seu restaurante.
Não sei se ela desconfiou, ao ver o tamanho de bicho, pois era de tamanho gigante, mas logo soube a verdade, quando foi ao galinheiro alimentar as galinhas e não o encontrou lá. Obrigou-me a ir a Vila Cabral, à procura de um que substituísse o defunto e eu trouxe-lhe um galo que era uma estampa. Em princípio aceitou, mas depois chorou baba e ranho, por serem as penas deste mais brancas, menos coloridas, que as do que lhe tínhamos comido!
E de Neves estamos falados! Espero que vos tenha agradado o meu conto que tinha previsto ser um pouco mais extenso, mas sou obrigado a terminar à pressa, pois chegou uma visita e não quero deixar isto em suspenso. Uma boa notícia é que estou melhor das minhas artroses e já consegui escrever isto a duas mãos!
Conheci o Neves-Neves não o socialista do MAI mas desconhecia a história de como o homem foi parar ao Niassa... Em 1971 moi-même bêbado que nem 'un clochard' part-lhe acidentalmente o vidro da padaria e claro tive que a pagar. Excelente post!
ResponderEliminarSaber que as suas artroses estão melhores e que já conseguiu escrever este texto a duas mãos é, sem dúvida, o melhor desfecho possível. A saúde e o bem-estar estão sempre em primeiro lugar. O seu conto, mesmo tendo sido encurtado por força da visita, cumpriu certamente o seu papel de entreter. Ficar no "ponto alto" e deixar um toque de suspense ou o desejo de ler mais é uma excelente característica de uma boa história.
ResponderEliminarPor aqui não cai neve, mas chuviscou!
ResponderEliminarA continuação das suas melhoras!
Abraço
Bom dia
ResponderEliminarPelos vistos a neve ajuda no tratamento das artroses.
As melhoras !
JR
Há ia-me esquecendo.
ResponderEliminarBoa sorte para mais logo.
JR
Adorei a história e ainda mais de saber que estás melhor das tuas maleitas.
ResponderEliminarTambém gosto do José Cid!
Beijos e um bom dia