terça-feira, 25 de agosto de 2026

As capulanas!

 


Uma negrinha de capulana e sem mais nada por baixo, além de umas voltas de missangas a enfeitar os pelos púbicos, era uma alegria para os milhares de combatentes que, de um dia para o outro, encheram Moçambique!

Nada que se pareça com a retratada aqui ao lado que já é produto de moda de alguma costureira que já passou por Paris. As capulanas à venda, em Moçambique, por uns poucos de escudos eram nada mais e nada menos que um pano de chita - pano de algodão barato, em ponto de tafetá e estampado com motivos de cores berrantes - de 140X140 centímetros.

As dimensões tinham a ver com os teares em que era tecida a chita com fio de algodão ido de Moçambique para as fábricas têxteis do Vale do Ave, em que iniciei a minha vida profissional. Eram máquinas compradas na Suíça (de melhor qualidade) ou em Itália (para quem tinha menos dinheiro) e que só teciam pano da largura de 0,90 ou 1,40 metros.

O meu primeiro emprego foi como «apontador da casa do pano», posto importante, onde as tecedeiras iam entregar o produto do seu trabalho e que dava ao patrão duas informações importantes. Em primeiro lugar, quanto produzia a sua tecelagem e, em segundo lugar, que salário era devido à tecedeira que ganhava por metro produzido.

Passaram-me pelas mãos alguns milhares de cortes (com, aproximadamente 50 metros) de chita e outros tecidos mais nobres que davam pelos nomes de Suévia, Baiela ou Flanela, além de muitos padrões para camisaria de homem e blusas de mulher. Não durou mais de 13 meses esse meu emprego, várias razões me levaram a desistir dele e alistar-me na Marinha, como voluntário, no dia em que completei 18 anos (no dia 9 de Março de 1962).

A pressa era tanta em arranjar combatentes para a Guerra Colonial que oito meses depois já estava eu em Moçambique a ver as moçoilas de cor acastanhada - preta nunca vi nenhuma - vestidas com o mesmo pano que me tinha passado pelas mãos, meia dúzia de meses antes. Chita de 1,40 de largura que os cantineiros espalhados pelo mato, em todo o Moçambique, dobravam em triângulo para estabelecer a medida exacta, davam um pequeno corte com a tesoura e rasgavam como se fosse papel.

Ao lado da cerca de arame farpado do Quartel de Fuzileiros da Machava (Infulene) corria uma picada por onde passavam filas de indígenas - assim chamados por oposição aos brancos de origem europeia - a toda a hora do dia. Algumas catraias, ainda longe dos 20 anos de idade, carregavam bilhas de água ou cestos onde levavam mandioca ou outros mantimentos para a família.

Um dos desportos que cedo descobrimos foi caminharmos ao lado delas e, sem prévio aviso, puxar a capulana que as cobria, deixando a descoberto a beleza que Deus houve por bem dar a cada uma. Algumas não teriam grande coisa a agradecer ao Criador, mas, de vez em quando, lá aparecia uma que merecia uma estátua. A Angelina ficou-me na memória até ao dia em que eu feche os olhos para este mundo!

Depois fui para o norte, lugar em que a vida dos residentes continuava como há alguns séculos atrás, salvo a introdução das capulanas que era uma invenção portuguesa do século XX. E a canalha miúda, até por volta dos 10 anos, andava nuazinha como veio ao mundo. Na imagem acima, pode ver-se uma habitante do Lago, onde passei algum tempo da minha vida, vestida com a tradicional capulana.

Depois da janta (?) havia que lavar a loiça, depois dar banho à criança e de seguida desapertar a capulana e fazer a sua higiene diária. Tão simples como isso, era apenas necessário dar dois passos em direcção a águas mais profundas e gozar da liberdade que a natureza lhe oferecia. Casa de banho, em casa? Ninguém sabia o que isso era!


1 comentário:

  1. Com corres garridas o visual da capulana em esbeltos corpos aparece sempre aos visitantes que se aventuram na West Coast of Africa. Ficando com a impressão que a capulana continua a ser a rainha da chita em Africa e o desenho - sem botões nem fechos - 'o mesmo berço de embalar' que conhecemos em Moçambique.

    ResponderEliminar

A quem possa interessar!

Ou, como diz o inglês, "to whom it may concern"! Não posso esquecer os anglófilos, pois é deles o primeiro lugar do pódio dos meus...