Tenho muitos álbuns de fotografias, daqueles que se usavam antes de haver uma pen ou a nuvem, onde agora a Google ou a Microsoft, para não falar na Meta, as guardam para nós. Ontem, fui buscar o meu mais antigo, o número 1, onde pensava ter guardado uma foto que não encontrei. De caminho dei de caras com uma das minhas apaixonadas do tempo que vivi em Lourenço Marques.
Quando me casei, a minha jovem mulher deitou as mãos aos meus álbuns e rasgou as fotos de todas aquelas que lhe cheiravam a rival. Estive para me zangar a sério por causa disso, mas decidi que o casamento era mais importante que umas fotos de umas tantas mulheres, algumas das quais nunca significaram nada para mim.
Um homem solteiro ou tem namorada ou anda à procura de uma. E quando uma passa à história volta ao "campo de batalha" à procura de outra que substitua a que se foi. Estava eu numa dessas fases, quando aceitei o convite de um camarada meu para o acompanhar numa tarde de domingo. Ele andava de olho numa catraia que saía sempre acompanhada com 3 amigas. Ele conhecia-a do trabalho, atrás de um balcão, mas só aos domingos, quando não estava de serviço de sentinela, podia passear com ela e dar-lhe a mãozinha, como era hábito nesses recuados tempos do século XX.
Não se sentia confortável no meio de 4 mulheres, todas na casa dos 20 anos, e pediu-me para o acompanhar, segredando-me que todas eram livres e talvez eu pudesse arranjar "negócio" com alguma delas. Foi apenas a primeira vez que o fiz, outras se seguiram, nos meses seguintes, antes de a guerra me levar para o norte e para o meio do mato, onde só havia negrinhas embrulhadas em floridas capulanas.
Das 3 restantes, descontada aquela que estava na lista dele, engracei com uma bonitinha de nariz arrebitado, mas pouco tempo depois desanimei, quando descobri que ela usava uma prótese dentária com os dois incisivos e tinha o costume de a fazer oscilar com um movimento, talvez involuntário, da sua língua. Qualquer homem "arrefece", quando pensa em beijar uma miúda com prótese dentária!
Das outras duas, uma era poveira, filha de um mestre da Capitania do Porto de Lourenço Marques e falava comigo com o à vontade de uma filha da terra. A outra era irmão da pretendida pelo meu camarada fuzo e parecia-me séria demais para alinhar em namoricos de ocasião. Por isso eu nunca "me fiz ao piso" e acabei por sair, algumas vezes sozinho, com a poveira.
Fomos para o mato e regressámos, cerca de um ano depois, mas não voltei aos passeios domingueiros de antigamente. No dia antes de embarcarmos no Vera Cruz para regressar a Lisboa, o meu camarada marcou um encontro com a namorada para se despedir e mais uma vez me desafiou a ir com ele. Beijinho para cá, beijinho para lá, promessas de ficar a escrever umas cartas, a irmã séria meteu-me uma foto na mão com uma dedicatória pelos meus 24 anos que comemoraria durante a viagem.
E quando aportámos a Luanda, tinha uma carta dela á minha espera! Talvez ela pensasse que a irmã viesse a casar com o meu camarada e andando nós juntos, quem sabe, ela tinha uma hipótese de ficar comigo. Sabe Deus e mais ninguém o que vai na cabeça de uma rapariga daquela idade e cujo sonho é casar, muitas vezes sem poder escolher o marido mais conveniente. Eu limitei-me a colar a foto dela, uma grande com a tal dedicatória que sofreu a censura da minha mulher, e uma mais pequenina que escapou à fúria do ciúme e escapou para me fazer recordar esta história.
Tal como reza o ditado, o homem põe e Deus dispõe, e quis o destino que alguns anos depois, essa amiga poveira do grupo da 4, aparecesse aqui na Póvoa e com uma filha nos braços. Pelos vistos, o namoro que não vingou comigo acabou por vingar com outro marujo que prestava serviço no Comando Naval e ela acabou por ficar grávida. Depois de muita guerra com o pai, por causa disso, acabou por regressar à Metrópole, talvez combinada com o pai da filha para se casarem, depois de ele acabar a comissão.
O destino tem destas coisas, ela acabou por fazer amizade com a minha mulher e foi-lhe logo confidenciando que tínhamos tido um breve namoro nesses tempos dourados da juventude. Felizmente não houve tempestade por causa disso e, numa altura em que nos encontramos sem a presença da minha mulher, falámos, livremente, sobre essas tardes domingueiras em Lourenço Marques e ela confidenciou-me que essa amiga que me deu a foto com dedicatória era "apaixonadíssima" por mim.
Coitada da Gina (era assim que se chamava), primeiro viu o meu jogo com a amiga dos incisivos postiços e depois as saídas com a poveirinha, como havia ela de contra atacar e ficar com o pretendente livre do grupo. Ela era do género envergonhado e nunca daria o primeiro passo e eu não tive tempo de perceber os seus sentimentos, a minha prioridade era a guerra, tudo o resto era secundário!

A pouco e pouco vamos percebendo os passos do caro Tintinaine.
ResponderEliminarViver é (também) isto.
Dá-me a impressão que esta foto foi tirada na Praça Mouzinho de Albuquerque em Lourenço Marques (?!). Lembrando-me que ao dobrar da esquina logo a seguir 'ao Aquário' na Rua do Crime havia uma pequena loja de artigos fotográficos. Comprei aí a minha primeira e última Polaroid. Uma novidade para a epoca estreada na palhota da Zaida... E só de pensar no assunto valeu a pena ler este post.
ResponderEliminarPenteados e vestuário, nitidamente anos 60!!
ResponderEliminarO resto não comento!!!