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Hoje, fui dar uma arrumação nos meus arquivos fotográficos e apareceu-me esta foto que retrata o cantinho do céu, onde fui parar, em Setembro de 1964, data em que começou o "foguetório" da Frelimo, no Niassa, noroeste de Moçambique. Muita bronca houve, por ali à volta, mas dentro da península de Metangula havia paz e segurança.
Os primeiros tiros foram disparados contra a lancha Castor que estava fundeada na baía de Thungo (que mal se avista do lado esquerdo da imagem), no dia 24 de Setembro, se a memória me não falha, e no dia seguinte, ao cair da noite, dava eu ali entrada, de G3 em punho, para garantir a segurança das instalações navais, uma pequena cidade construída em betão armado, um luxo naquele fim de mundo.
Vila Augusto Cardoso era o pomposo nome dado pelos colonizadores portugueses àquele recanto de Moçambique, mas os locais - assim como nós que para lá fomos desterrados - nunca deixaram de lhe chamar Metangula (forma portuguesa) ou Ntengula (forma indígena) e com esse nome ficou, em definitivo, depois da independência.
Antes da construção da «Pista de Aviação» havia muitas palhotas naquele recanto da península (lado poente), mas, em 1965, foram retirados todos os moradores para construção da pista, obra levada a cabo pelo pessoal da CF6, comandada pelo 1º Tenente Patrício, militar de renome na Marinha e, em especial, entre os fuzileiros.
Em fins de Março desse ano, parti eu para Lisboa para frequentar o Curso de 1º Grau que me daria direito a usar as divisas de Marinheiro e entrar no quadro dos funcionários públicos. Uma parte da CF6 partiu, nessa mesma data, para Metangula para garantir a segurança do perímetro militar da península. Não sei se foi esse grupo a dar início às obras da pista, ou se o resto do pessoal que se juntou a eles, uns meses mais tarde.
A população que, nessa altura, não deveria exceder os dois milhares de indivíduos, ficou dividida em dois grupos, um na praia de Seli, lado poente do istmo, e outro na praia de Thungo, lado nascente do istmo, ambos fora da península, onde ficavam as instalações da Marinha, uma cantina civil, uma pequena igreja católica e um posto de enfermagem, pomposamente, chamado de hospital.
No largo que se avista ao centro da imagem funcionava o mercado, campo de futebol, paragem da camioneta da carreira que passava por ali todas as terças feiras e lugar de grandes reuniões da população, quando isso se tornava necessário (muito comum em tempo de guerra). Lembro-me de um grupo de miúdos que ali fazia funcionar um negócio de blocos feitos de matope e capim que eram vendidos ao preço da uva mijona a quem queria construir uma palhota que não fosse feita de "pau a pique", como era a maioria.
Dali à capital da província eram 120 Kms por uma estrada de terra batida, sofrível no tempo da seca, mas intransitável no tempo da chuva, ou seja, 6 meses in e 6 meses out! Havia um desvio, por Nova Coimbra, para evitar a estrada do caracol, que acrescentava mais 10 Kms à viagem. A camioneta da carreira seguia sempre esse trajecto, pois não tinha condições para fazer o «Caracol de Maniamba», estrada que em poucos Kms desce cerca de 500 metros de altitude, entre as serras e a margem do lago.
Desculpem qualquer coisinha, mas hoje foi dia de regresso ao passado. Impossível resistir a visitá-lo, de vez em quando!

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