Eusébia era o seu nome e era minha bisavó, não tia que tias são todas as mulheres da aldeia sejam elas familiares ou não. Um dia deu-me para descobrir, ou tentar, saber quem foram os meus antepassados. Não pensem que é tarefa fácil!
Houve um tempo em que a família da minha mãe eram três mulheres. Primeiro eram apenas duas, Maria e Rita, mãe e filha, mas depois a viuvez de Eusébia trouxe-a para casa da sua filha Maria e da sua neta que era ainda uma jovem rapariga solteira. A velhota andava na casa dos 80 e foi atacada pela forma mais severa de Alzheimer, o que fez da sua filha e neta escravas a tempo inteiro para tomar conta dela.
A minha avó Maria não era mulher de muitas falas, mas foi ela que me criou e passámos juntos os primeiros 11 anos da minha vida. Além do meu pai que raramente parava em casa, eu era o elemento masculino na vida da minha avó e ela, lá em cima do sítio para onde foi, há mais de 50 anos, deve estar a verter uma lágrima ao ver-me falar nisso.
Cresci a ouvi-la falar da sua mãe Eusébia e das tropelias que fez ainda jovem, do seu casamento tardio e da sua doença, nos últimos anos de vida, que redundavam sempre em grandes risadas pelas figuras parvas que fazia pela aldeia, cada vez que se conseguia furtar à vigilância das suas guardiãs. E foi esse o tiro de partida para uma investigação que me ocupou a tempo inteiro, durante perto de um ano.
Andar para trás no tempo à procura de nomes e parentescos de pessoas já desaparecidas não é tarefa fácil. Mais ainda, quando o único meio de prova é um velho livro de sacristia mal escrito e mal tratado pelo abade da freguesia que, em muitos casos, era bem preguiçoso e deixava a terceiros o ofício de escrever aquilo que a ele competia e para que tinha passado perto de 20 anos a estudar/aprender. Redigir o "assento" de baptismo, de casamento, ou de óbito dos seus fregueses provou ser mais pesado do que alguns conseguiam aguentar e delegavam em ajudantes que se prontificavam a fazê-lo.
Sabendo que não ia ser fácil encontrar o fio da meada, decidi copiar de fio a pavio todos os registos de baptismo e casamento da freguesia onde nasci. Comecei a encher o meu computador de nomes e datas que se iam encaixando e formando famílias. Infelizmente, alguns registos são completamente ilegíveis, seja por culpa de quem os escreveu, pela qualidade da tinta ou dos muitos anos já decorridos. E há ainda páginas rasgadas ou que sofreram qualquer acidente que as tornou incapazes de trazer até mim a sua mensagem.
Jerónimo era o nome que ansiava encontrar. A minha avó sempre afirmara ser da família do Jerónimo e tinha umas vizinhas que se diziam suas primas e pertencerem a essa mesma família. O Jerónimo só podia ser uma avô ou bisavô de quem elas não conheciam os apelidos. Registo atrás de registo fui mastigando aquela marmelada toda e só depois de recuar perto de 200 anos da nossa história recente, encontrei o primeiro Jerónimo nascido na minha freguesia.
Corria o ano de 1743 e a família que deu origem a esse Jerónimo era constituída por uma rapariga de família nascida e criada no mesmo lugar onde eu nasci e um homem filho de gente de fora da freguesia que trouxe o apelido Ferreira para juntar ao Jerónimo que eu tanto procurara. No início fez-me alguma confusão, pois o apelido da minha mãe, avó e bisavó era Sousa e seria esse o apelido que eu esperaria encontrar colado ao Jerónimo. Jerónimo de Sousa, tal e qual como o político de que vos falei ontem e que, em certa medida, me fez pegar neste assunto para a minha publicação de hoje.
Já com dois séculos de registos no meu computador recorri aos meus parcos conhecimentos de Excel para relacionar pais com filhos e filhos com pais, de modo a descobrir quem era quem e que famílias existiam naquela freguesia. E foi assim que descobri que a Eusébia era um dos dez filhos do Joaquim, que era filho do José e neto do Jerónimo Ferreira. A culpa da perda do apelido Ferreira coube a este José, meu tetravô, que ao casar-se com uma senhora de apelido Souza passou esse apelido para os seus descendentes em vez do seu Ferreira, herdado do pai e avô (Manuel, já agora e por curiosidade).
E não vos canso mais com as minhas manias geracionais, embora deva dizer que ando com um plano de escrever a história dos dez (10) irmãos, filhos de Joaquim Álvares de Souza, pelas muitas ligações a pessoas que povoaram a minha infância e vivem ainda na minha memória ligadas a lugares, propriedades e outras coisas que me dizem respeito!
Pouco sei dos meus antepassados mas segundo uns primos afastados vieram a salto de Castela e só pararam nas margens da Ribeira de Unhais. Com peixe fresquinho, castanhas e água por lá viveram felizes até que o plantão na Torre de Menagem veio a correr para a povoação e os avisou que a Inquisição vinha a caminho. Que escondessem o kipá na arca salgadeira antes que a coisa desse para o torto. Acho que a partir começaram a pagar impostos para o Rei e a Côngrua para a Igreja... mais não sei!
ResponderEliminarGostaria de saber como isso se consegue fazer, queria saber algo mais acerca dos meus antepassados do meu lado paterno...
ResponderEliminarAbraço