sexta-feira, 10 de julho de 2026

João no crematório!

 Ontem, fizeram-lhe o funeral com a presença dos filhos (3) que vieram de Paris para o efeito. Muitos amigos presentes, o que não me adira nada, o João era a pessoa mais popular que eu conheci. Excepto eu que que poderia ter feito um sacrificiozinho, mas sou demasiado preguiçoso para isso e não me dou muito bem com igrejas.

Hoje vão esturricá-lo no crematório do Vale do Ave que é o que está na moda! E assim acaba a sua história de 80 anos, feitos há pouco, que ele, segundo o seu filho Pedro, viveu em grande!

Na primeira semana de Outubro, do ano da graça de 1959, aterrei na Póvoa como estudante e fiquei a viver numa velha casa - que dista apenas 20 metros desta em que moro hoje - partilhada por duas famílias, a minha e a dele que constava de uma mãe solteira com dois filhos. O mais velho, José, tinha 18 anos e o João 14 e que foi o meu primeiro amigo da Póvoa. Partilhávamos a cozinha, a sala e o grande quintal da casa, de resto cada um tinha o seu canto para dormir.

Eu passava as manhãs no colégio que frequentava como externo e estudava de tarde. O João já trabalhava, como ajudante de pintor, e saía de casa antes de mim. As brincadeiras ficavam reservadas para o fim de semana e cada um de nós tinha um grupo de amigos diferente. Se não fosse por morarmos na mesma casa, talvez nunca tivéssemos chegado a ser amigos.

Depois veio o tempo da tropa, eu comecei cedo oferecendo-me como voluntário para a Marinha, e cada um seguiu o seu destino. Por casualidade o João também fez a Guerra Colonial, em Moçambique, tal como eu. Depois da tropa veio a emigração e ele foi para Paris pintar paredes para os franceses, Na hora da reforma regressou à Póvoa e fez questão de reunir os seus velhos amigos e passar com eles a maior parte dos seus tempos livres.

No mínimo, uma vez por ano, reunia-os a todos, coisa nada fácil pois vivem espalhados pelo país e alguns no estrangeiro, num grande jantar que deixou marcas em todos nós que fazíamos parte do grupo. Bastantes tinham já falecido e ele ia juntando ao grupo amigos mais jovens, todos oriundos do bairro onde ele nasceu e morou, antes de emigrar, para que o grupo se mantivesse de um tamanho impactante e fizesse furor nos dias desse jantar anual.

Seria no próximo mês de Agosto o jantar deste ano e ele já me tinha avisado para não faltar. Afinal, será ele a marcar falta de comparência, porque o destino lhe passou essa rasteira. Cada vez somos menos e não tardará que ele consiga reunir, de novo, todo o grupo numa nova dimensão e sob os auspícios de S. Pedro que sempre foi o nosso padroeiro!

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